09 novembro 2010

O OURO DE MURIBECA- 7 FINAL

Um bando de meninos brincava de bola no areão de uma rua larga que ia dar no sopé da serra. Por um momento, a molecada suspendeu a diversão para reparar dois cachorros vira-latas latindo no meio do areal um pouco mais acima. Os cães investiam contra um vulto que jazia na areia. Todos correram para ver do que se tratava. Foram se aproximando timidamente daquela coisa esquisita caída sobre um fardo. O monte de trapos e grude sobre o embrulho de couro recendia a carne podre, mas parecia algo vivo, lembrava um homem. Era o homem.  A barba grande e pastosa, cheia de tufos de grude, o cabelo, um tanto crescido e embuchado, no mesmo estado de degradação. O resto não dava para identificar claramente sob a iluminação amarelada e fraca da rua. Porém o cheiro de carniça impregnava o ar. Os meninos se aproximaram. Uns jogaram areia naquela coisa para certificar-se de que estava viva, outros jogaram pedra e houve um que o cutucou com uma vara de são joeiro. Foi quando o homem abriu pesadamente os olhos e se deparou com a meninada ao redor. Arregalou os olhos e começou a emitir gritos frouxos e desesperados, reunindo as últimas forças: Meu ouro! O ouro é meu! Ninguém vai me roubar, mangote de peste! E gritava! E gritava! Até que conseguiu levantar-se e, com um esforço terrível, jogar o saco do tesouro nas costas. Os meninos se afastavam aos poucos com medo daquela coisa. O homem deu um passo, esboçou um segundo, mas se espatifou no chão com a cara enfiada na areia. O saco feito de couro de onça e de bode se abriu espalhando o tesouro pela rua. O homem, uma coisa andrajosa e deplorável, se esgotou de vez e não conteve o desmaio.
Nesse momento, algumas crianças voltaram a se aproximar, dessa vez acompanhadas de adultos que ouviram os gritos desesperados do homem. Uma roda de curiosos se fez em torno daquela coisa feridenta e podre. Mulheres não escondiam o asco. Umas tapavam o nariz... Um senhor respirou fundo e se aproximou. Virou o homem de barriga para cima e constatou que ainda estava vivo. Arranjou um lençol velho e, com a ajuda de outros, pôs a pobre alma em cima. Levaram-no embrulhado no pano até a porta do hospital e o abandonaram lá diante de enfermeiros. No areão da rua, os meninos voltaram a jogar a partida de bola interrompida, alheios ao fétido saco de couro cheio de  pedras, apenas pedras, muitas pedras, abandonado no meio da rua. (Fim) 
HÁ BRAÇOS!

3 comentários:

gustavo disse...

além de informação atual,é muito imporatante conservarmos nossas lendas e histórias.fui um dos privilegiados em ouvir esses contos como manda a tradição,narrado por minha vó,meu pai,etc.mas acredito que hoje em dia poucas crianças(assim como os pais) teriam tempo pra ouvir e imaginação pra saborear uma boa historia.
parabéns ao gtv!!!!

GTV BOCA DO INFERNO disse...

Valeu Gustavo, a intenção do blog também é essa: falar da nossa cultura por meio da literatura.

baltazar disse...

Boa história, não se pode deixar que as lendas, as tradições orais se percam no decorre do tempo.