04 setembro 2009

VIDA SEM MARGENS



(na travessia do Rio São Francisco)

Eu rio às margens destas águas
E não imagino que o arco
Estampado em minha face
Reflete a triste canoa,
Última condução a que estou fadado.
Eu rio porque ignoro os dois terços
Deste líquido agonizante
Que movem minha própria carne.
E o solitário peixe que se debate no anzol
Do menino sentado no barranco oposto
Não tem um fim pior que o meu
Ele conta com menos ilusões.
Agora eu já não rio,
O menino meu rival há muito partiu
Com o peixe moribundo no gancho
E o rio segue silencioso...
Borbulhando nas águas do meu ódio,
Espumando em meus detergentes morais:
Minhas fases e fezes e fomes
Coisas de quem perdeu a cabeça e a foz
E tanto faz como pouco fez
E esses dois terços de água
Que me põem de pé
Derrubam tantos, tantos, tantos...
Que já só posso pensar em Tânatos
tânatos, tânatos...
O rio me dava garças ao entardecer
E eu lhe dava cachorros mortos e urubus
O rio me dava frutas doces e diversão
E eu lhe dava pneus velhos e latas e plásticos,
Nada plásticos...
Muito, muito, muito...
O rio me dava alegria
E eu lhe dava mercúrio e agrotóxico e detergente...
O rio me dava a vida
E eu lhe dava a morte...
Sem nem saber que aos poucos
Também me consumia.
Em contas debulhadas sobre a insensatez
Sem perceber
Que no meu faz de conta,
Nas contas que fiz...
Não entrou este Rio.

(alan)

4 comentários:

Alan disse...

boa poesia, gostei muito, gostaria de saber mais sobre o autor, se possivel.blog muito bom! pena que não tenha COMENTÁRIOS.

GTV BOCA DO INFERNO disse...

Caro homônimo, mais sobre o autor do poema você encontra em http://inquietaserraazul.blogspot.com

Anônimo disse...

Caro homônimo (Alan), o que garante este blog são os colaboradores, as ideias e os leitores. Comentários são bem-vindos, mas não tão fundamentais quanto as ideias e os leitores. Isso (idéias e leitores) nós temos em abundância. Se sua mãe tivesse aparado um pouco suas orelhas e sua cauda, talvez você conseguisse articular um comentário mais inteligente. Há braços!

leonardo disse...

grande poema!!!!!!!!!!