19 junho 2010

A VIDA NA AREIA

Quando cheguei à Canabrava, em 1980, fui morar na rua São Geraldo, uma rua arenosa e desasistida, onde vi os primeiros personagens nordestinos com os quais cruzaria cotidianamente. Entre esses personagens havia quatro bem marcantes: o mais próximo era um senhor de nome Joaquim Branco cujo modo de falar manso, alongando as vogais despertava  atenção. Seu Joaquim era um senhor humilde, um camponês que conseguiria um pouco depois colocar pelo menos dois filhos na Universidade Federal: um rapaz e uma moça. Naquela ponta de rua isso significava mais que  uma grande vitória. Outros dois personagens moravam  um pouco abaixo. A esquina à direita de nossa casa era habitada por um casal que vivia em uma taperinha de taipa e telhado de palha. O homem atendia pela alcunha de Maroto e a esposa chamava-se Zefinha. Ambos formavam um harmonioso casal idoso. Todas as manhãs, a parelha solitária de velhos negros saia tocando um jegue rumo à serra. O homem à frente puxando o animal e a esposa atrás com uma vara  de malva na mão tirando a manha do jegue aqui acolá.
A esquina esquerda da rua dava no barreirão, ao lado do cemitério velho. O barreiro era nada mais que um imenso e fundo buraco aberto pela extração de barro para fazer tijolos. Passeando ali pela beirada, ao longe eu avistava saindo de casa o quarto personagem, o mais intrigante: uma senhora velha que também morava em um casebre de enchimento com cobertura de palha. Era uma mulher franzina que vestia calças masculinas e enrolava um pano encardido na cabeça parecendo às vezes um turbante. No início das tardes de segunda-feira invariavelmente eu a encontrava na praça da feira catando grãos crus de feijão perdidos pela areia do vão onde se estabeleciam os vendedores desse alimento tão apreciado pelos sertanejos. Era o retrato da pobreza aquela sertaneja esquálida  acocorada ao relento com as mãos revirando a areia suja da feira, perscrutando cada revirada em busca de minguados feijões que caíram das sacas no fervilhar da manhã de feira e que se perderam no areal da praça. Mas parece que essa era a forma como essa nordestina vencia a fome. Coisa triste de se ver. Dura como aroeira, nunca a vi pedindo esmolas, embora fosse uma possibilidade. Por muito tempo  presenciei essa senhora da qual nem me lembro o nome ciscando pela praça a realizar seu ritual das segundas-feiras. Quando ela morreu eu há muito já havia me despedido da rua São Geraldo, mas corri ao encontro de notícias no que uma negra gorda  que costumava subir a rua equilibrando uma trouxa,  com destino à Fonte Grande, me informara que a encontraram morta dentro do rancho e o que mais causou surpresa nos primeiros curiosos a chegar não foi a serenidade estampada no rosto magro da falecida, mas o tanto de latas velhas enferrujadas de todo tamanho e qualidade formando uma pilha que tomava todos os cômodos da casa, chegando a atingir o teto. Há braços!

2 comentários:

Alan disse...

Conheci bastante o senhor Joaquim Branco, figura impar, bom contador de casos, natural de Presidente Dutra onde viveu muitos anos, descedente direto do velho venceslau machado mudou-se, já bem maduro, para Uibaí, onde viveu o resto de sua vida.

baltazar disse...

Gostei do texto, lendo-o foi como se alguem tivesse tirando um fio do novelo da memória e dando-nos. Olhe isso, veja aquilo. Aí, sim, é uma prosa boa. Daquelas tiradas da calçadas na boca da noite.