21 janeiro 2009

BOCA DO INFERNO 40, jan/fev 2009

CONTRA AS ABOBRINHAS DOUTRINÁRIAS
Entre os arroubos de mediocridade e de dissimulação de ignorância que a academia produz para proteger interesses ideológicos estão a distorção das ideias e do sentido da obra de certos autores que, se lidos, impediriam a eficácia da doutrinação nos feudos universitários. Creio que, entre outros, um dos autores mais perigosos e, portanto, mais distorcidos é Friedrich Nietzsche. Dentre as abobrinhas ideológicas que já ouvi de bocas e li em textos de universitários está a de que Nietzsche não é filósofo, porque não tem um pensamento sistematizado.
Nesse caso, a ignorância é dupla: primeiro os imbecis que afirmam isso consideram Sócrates e uma porrada de outros pensadores que nem textos escreveram como filósofos, mas Nietzsche não pode ser. Depois dão uma prova cabal de que não leram sequer uma página da obra nietzschiana, pois se o tivessem feito saberiam que a filosofia de Nietzsche é uma crítica aos valores ocidentais e sobretudo ao modo torto de pensar e de fazer ciência no ocidente. Ele próprio em um prefácio crítico ao seu primeiro livro " A origem da Tragédia", afirma em tom de autocrítica que não deveria ter escrito daquele modo tal livro já que o tal modo de proceder era objeto de crítica no livro. Diz assim esse pensador genial:"Quanto lamento agora que não tivesse então a coragem (ou a modéstia) de permitir-me, em todos os sentidos, também uma linguagem própria para intuições e atrevimentos tão próprios"...[1]
Outra forma vil de afugentar as ovelhas universitárias do pensamento livre de Nietzsche foi tachá-lo de antisemita, de nazista. Primeiro, não há uma linha de antisemitismo em Nietzsche. Quem leu a obra, que notadamente é do séc desenove, antes do nazismo portanto, sabe disso. Uma coisa é Friedrich Nietzsche, outra coisa foi o que a irmã dele, Elizabeth Forster, fez com a obra do filósofo, muito depois da morte desse autor. Simpatizante do nazismo, ou querendo fazer média com o poder, Elizabeth e o marido usaram e deixaram que usassem o pensamento do irmão filósofo de forma baixa e desrespeitosa. Distorceram cinicamente tudo.

Quanto a isso já até ouvi debilóides universitários afirmando que a teoria do super-homem de Nietzsche confirma seu gosto pelo purismo do tipo ariano de Hitler. Uma vez, de saco cheio, eu perguntei a um imbecil desses se ele sabia o que significava "übermensch" em português. Não soube responder. Tive que dizer que era o termo alemão que Nietzsche usou em sua obra e que a tradução mais honesta para o português seria "além homem", mas que esse termo foi traduzido maldosamente como super-homem o que torna incompreensíveis as relações que fazem entre o pensamento do autor de Genealogia da Moral e esse delírio de homem puro e máximo.
Mas parece que a distorção vingou, até porque não há hábito de leitura no meio universitário. Quando muito, a maioria dos nossos gênios do terceiro grau leem fragmentos de interpretações, boa parte delas codimentadas com as distorções comuns produzidas pela patifaria intelectual que tem caracterizado a educação de nível superior no Brasil.


(bichu duzimbu, feliz por ter voltado)
[1] NIETZSCHE, F. A origem da tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

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