01 dezembro 2009

LIÇÃO DA NATUREZA

No início desta tarde chovia aqui no bairro. O tempo sombrio açoitava o telhado com rajadas intermitentes. Eu corri, como sempre, para a janela. Aninhado no parapeito assistia à suspensão gradual da chuva e aos fios de água formando uma cortina cristalina ao longo do telhado. A chuva é agradável, o sombrio dela não tem nada de melancolia. Não vejo negatividade naquele ceu tingido de cinza, baixo e disforme como o teto de uma tenda árabe. Na verdade, corro à janela comumente para contemplar o viço das árvores gotejando e a corredeira que se forma à margem da rua.

Assistir à água descambando rua abaixo é uma experiência maravilhosa. A água é alegre, forte e vibrante. Aquele barulho, uma espécie de tagarelar líquido, me lembra a Fonte Grande no  verde, como o canabrabeiro costuma dizer. E se a gente se detém olhando a água corrente sente a força e determinação com que ela avança rumo ao seu destino. Mas há também humildade na força vibrante da corredeira: ela não enfrenta tudo  como se fosse invencível, pelo contrário, se curva a certos obstáculos, desvia-se de outros, muito embora atropele e até arraste alguns que querem ser mais do que são.

A água não vai além da sua medida. Ela mostra sempre ser o que é e pronto. A água que escorre agora na borda da rua tem um objetivo e segue obstinada rumo a alcançá-lo, sem saltar fora da sua própria medida. Ao contrário de muitas pessoas, a água não quer ir além do que é e nem aceita ser menos. Contemplar silenciosamente a água da chuva descendo em enxurrada é uma lição. Há sabedoria naquele movimento inexorável da natureza. Tenho para mim que ele nos diz: seja alegre, vibrante, siga firme o seu destino, não se abata por obstáculos minúsculos e seja flexível com o que vai além de suas forças. Mas siga, siga sempre... alegre e vibrante em direção a seus objetivos. Essa é a boa lição da natureza. Há braços!

4 comentários:

GTV BOCA DO INFERNO disse...

COMENTÁRIO DE ENOCH CARNEIRO:

Prezado Alan,

A viagem na tua chuva valeu, eu também fui transportado para a nossa Fonte de Uibaí, cheguei mesmo a senti os pingos reduzidos ao mínimo, ao vapor tremulante que às vezes esconde o Morro Branco. Escrever é uma arte, imaginei viajar mais tempo que nos anima e do mesmo modo nos corrói por fora e por dentro, porém você, poeta ingrato e despudorado, parou muito rápido e eu, mordido pela mesma víbora que ataca os escribas de todas os recantos, também sofri o efeito do freio de arrumação do Buzu da vida errante que se arrasta ao lado dos mortais. Vai-te embora profeta, mistura indigesta de sacro e profano, leva comtigo todos os poetas para os quintos dos infernos, escuridão nossa de cada dia, onde moram os anjos e monstros de todos os tipos. Eu te condeno a duzentos anos de solidão e quinhentas chibatadas, por adrentares em meu umbral, sem licença e sem aviso prévio. Se um dia o fogo do satanás se apagar, não satisfeito eu te fritarei com óleo de mamona, até que as tuas cinzas se espalhem e se acomodem na base das pedras do pátio de minha amada Quixabeira. Farei uma placa de bronze em tua última morada: aqui jaz, Allan do Allen, um louco perigoso que aprendeu a escrever.

Atenciosamente.
Enoch Carneiro.

GTV BOCA DO INFERNO disse...

RESPOSTA DE ALAN:


Caro Enoch, poeta primaz de minha terra, não desperdice o seu precioso tempo procurando o meu lugar dentro de todas as maldições possíveis. Eu já estou condenado. Sartreanamente falando, estou condenado a ser livre e a liberdade é uma faca que fere constantemente o próprio dono. Não sou louco, muito menos perigoso. Há perigos maiores no solo vão por onde caminhamos, você sabe disso. Sou tão somente livre. Pensar, questionar só é loucura onde a moral de rebanho impera. E eu realmente não consigo entender porque persiste tanto em nosso meio essa cultura arredia ao debate, acanhada e sempre disposta a satanizar quem manifesta opinião. Só tenho para mim que isso é um vício mental herdado da nossa tradição de esquerda, entranhada na academia desde sempre. Aí, inevitavelmente, fico a pensar que com essa postura tendemos a servir mais a esquemas autoritários do que à democracia.Há certa solidão em ser livre e quem não sabe ser só também não está preparado para ser livre. Mas é doce a solidão de quem é livre, é produtiva e satisfeita, é leve... Não é aquela solidão magoada, amarga de quem, doidivanas, saiu atirando para todo lado acertando inclusive os próprios pés. A solidão que me faz companhia é saudável e necessária é a solidão de quem tem delineado os limites, as dimensões e as possibilidades do que faz, é a solidão de quem cria, de quem está no rebanho, mas não é rebanho e aí você tem razão: o sagrado e o profano se entrelaçam e se arrebentam nos nossos rompantes até porque ninguém vai muito longe sem arrebentar certas cercas. Eu arrombo cercas diariamente, sou igual aquelas ovelhas ruins que Braulino picava uma canga no pescoço e no dia seguinte o "satanais", como o velho Braulo gostava de dizer, tava na rua dando trabalho pros outros. Há braços!

GTV BOCA DO INFERNO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
baltazar disse...

Eu diria que este texto ser trata o caminho d'água, ou sina de caminhar, ou seira daquelas coizonas que somente os poetas como: J.Cabral ou Manuel de Barros poderiam escrever. Senti que eu estava na quixabeira olhado pela portinhola a dança da enxurrada numa tarde qualquer. Àgua levando àquela terra as galhias tristes "incurujadas" as cabras com as quatro patas numa pedra só.
O texto me fez ir naquele armário que o tolo do Freud nos fala, desempoeirei um catálogo velho, pus-me a contemplar a beleza de uma enxurradinhazinha.
Agora eu voltando ao mundo da história do presente, eu não enxergo a democrácia como uma salvação, esta demo que vemos é uma ilusão que as grandes emprsas nos diz que temos que ê-la, ora pois.