10 maio 2009

PRELÚDIO PARA UMA MEMÓRIA MUSICAL CANABRABEIRA

Mah e Juca, no Palco Livre, integrantes da nova geração musical de Uibaí

Em Uibaí, num primeiro momento, o que se preservou em termos de musicalidade, com o passar das décadas, foram as influências da música produzida nos anos de 1950. Não mais que os bolerões entoados pelos irmãos Nemi e Valmir Rosa e por Tobias, músicas de vertente romântica populares na década de 1950. A principal característica desse estilo é que a voz é o elemento mais importante e o violão simples acompanhamento. Assim, a boa música é aquela entoada a plenos pulmões. Coisa de tenor, coisa de uma época escassa em tecnologia sonora. A ausência de amplificação e microfones garantiu a supremacia desse estilo no Brasil inteiro, numa época em que o rádio era o grande veículo de difusão de cultura e de informação em massa.
Nemi Rosa, representante da velha guarda.
O primeiro sinal de abertura para experiências musicais mais modernas na Canabrava veio com o surgimento de Zé Índio, filho do poeta Valmir Rosa. No período em que viveu em Salvador, Zé Índio deu início a suas atividades de compositor de MPB. Foi a partir desse momento que a temática local e regional entraram em nossa música, bem como a crítica social.

Vejamos alguns exemplos das temáticas trazidas pela música de Zé Índio: a temática social: “Pão recheado com pão/ É a comida de João/ Hoje ele comeu carne/ Atacou uma congestão/ Seus órgãos só conheciam/ a vitamina do pão”; a temática regional e local: “eu sou sertanejo/ porque no sertão/ no sertão eu nasci/ sou do pé de serra/ de uma linda terra/ Uibaí”; “Quando o galo canta no quintal/ Anunciando que o dia vai nascer” a temática romântica sertaneja: “Onde andará a flor de maracujá?/ Eu sei onde a flor estiver/ meu amor também está”. Mais tarde, Zé Índio também fez experiências com o forró. Zé foi o primeiro cantor profissional de Uibaí, o primeiro a gravar disco, coisa quase impossível até o surgimento da tecnologia laser de CD dos anos de 1990, que aposentou o vinil.
Zé Índio em São Paulo, precursor da modernidade musical canabrabeira. Foto do orkut do cantor.
Alguns anos depois do surgimento de Zé Índio, houve dois momentos em que se tentou organizar a turma da música em Uibaí. O primeiro momento se deu com a criação da Fundação dos Artistas de Uibaí (FAU), articulada por Enoch Carneiro, em 1987. Um pouco depois de a FAU ser desativada, veio o segundo momento com o aparecimento do Grupo do Violão, articulado por Rui de Maroca e Pio de Rosinha, do qual faziam parte ainda Enoch, Simara, entre outros.

Em meados dos anos de 1980, a cultura de massa e sua música comercial exerceriam influência total na região, com a eclosão do Axé Music. Esse gênero dominou os bailes na região de Irecê. Bandas como Flor de Cactus, The Jet Sons, Tapajós, entre tantas que tocavam naquele período, embalaram os bailes com a nova sonoridade exercida por Luis Caldas, Missinho, Sarah Jane, Gerônimo, Banda Mel, Reflexus, Chiclete e cia. Antes mesmo de esgotar por completo a euforia inicial do Axé, já se desfrutava também na região de uma febre de Lambada e posteriormente de Música Sertaneja. A música Sertaneja gerou em Uibaí a dupla Moreno e Morenito, liderada por Beto de Roxão. A dupla chegou a gozar de certo sucesso e até influenciou alguns jovens como Ailton de Tõe de Bolô. Mais recentemente Uibaí ainda vivenciou um surto de pagode em estilo soteropolitano.

Com o clima de renovação cultural engendrado pelas semanas de arte, a partir de 1988, popularizaram-se a cantoria, com Joãozinho de Miro e Reinam do Poço e o reggae com sotaque de Celito, que teve seu momento de brilho nos anos de 1990, quando emplacou sucessos como "Jogador de bola", "Zezim de Lia" e "Caatinga do Cruel", isso um pouco antes de Simara despontar como cantora prodígio nos palcos juninos. Nessa direção, teve impulso o rock de Cassiano de Rubim e o rock de Marlon de Tonico, com a banda Caatinga Culta, posteriormente evoluída para Metamundo; apareceram ainda o grupo Banda voar, com Luisinho, Nemi, Gilson, Edimário e Rodolfo e o som forte de Nino Lima e Angelito... Por último, com o ressurgimento do Grêmio, presenciou-se, por iniciativa de Ari e Rui de Maroca, a introdução do samba na Canabrava.

Movida por uma pesquisa musical que incluía, entre outros clássicos do samba, a audição atenta de Clementina de Jesus, Noel Rosa, Cartola, Adoniram Barbosa e Nelson Cavaquinho. A dupla Rui/Ari principiou a produção de uma espécie de samba com sotaque caatingueiro, cuja temática se estende do rio São Francisco, em Xique-xique, ao pé da Serra Azul. O samba regional de Ari e Rui vem produzindo algumas pérolas como Samba da caatinga: "Mulherada gentileza/justifique numa boa/quem coloca o ovo azul /o cancão ou a cancoa?/... Diz o samba da caatinga/na cantiga do cangaço/cabaça cheia de furos/cabeça, chuva, cabaço" (...) e Ribeirinho canoeiro: "joga tua rede pro ar, canoeiro/sobre o espelho barrento/que o rebento do lado de cá/ancora couro ao tempo. ... O homem, peixe-boi se foi/da paisagem no momento/cantiga, força, corpo, luz/ navegando contra o vento" (...)
Ari e o samba regional, no Palco Livre do Grêmio

O importante de lembrar tudo isso ao nosso leitor, mesmo que de forma incompleta, é mostrar que temos valor, temos idéias e vamos evoluindo, crescendo dentro da convivência cultural e de suas confluências, de modo a ganharmos identidade. Se São Gabriel achou sua identidade musical na cantoria, Uibaí, precursor de São Gabriel, como se pode ver é muito mais complexo: já produz seu rock, sua cantoria, seu samba, seu reggae etc. E assiste, no atual momento, o surgimento de uma nova geração de bons músicos cantoras e cantores de estilos variados. HÁ BRAÇOS! alan

4 comentários:

Vilmali disse...

O Grêmio Cultural tornou-se uma espécie de ponto de influência e forte formador de opinião politico-
cultural em Uibaí. E, isso é muito bom...

Fábio Rosa - Dos do Povo do Poço disse...

Que bom ver esta retrospectiva! Parece que quando vemos escrito aquilo que presenciamos, tudo parece mais bonito! Parabéns!!!

GTV BOCA DO INFERNO disse...

É isso mesmo Fábio, aproveito a deixa para pedir desculpas aos artistas de Uibaí pelas possíveis omissões cometidas no texto. Na verdade, a vontade de ajudar a construir essa memória foi mais forte do que a disponibilidade de tempo para pesquisar todas as contribuições. Mas os leitores bem poderão ajudar nessa tarefa nobre. Não só aceitaremos as sugestões, como nos disporemos a ir acrescentando-as ao texto. O Poço de Uibaí, por exemplo, tem alguns cantores que não inclui por não me lembrar do nome... Se você puder ajudar com dados será ótimo! Há braços! alan

baltazar disse...

Caraculas, Como diriam os mais jovens no espanto, foi o tirar de coisas daquela mala que tu guardas "irriba" do guarda roupa, escutei o "tilido" do guarda-louças tirando tudo, fotos amareladas, disco vinil, caderno de poesia, lembrancinhas... Foi como se diz: detonou!