07 março 2009

BURRICE E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL

Banheirão em 1989, depois de ser desentupido.
Durante muito tempo, Uibaí foi, para a região de Irecê, o oasis das águas frescas e saudáveis. O lugar aonde as pessoas vinham buscar água cristalina ou desfrutar do lazer que os riachos e nascentes da serra ofereciam durante o ano inteiro.
Até meados dos anos de 1980, o Banheirão, por exemplo, recebia um fluxo significativo de pessoas de muitos municípios da região. Ocorre que paralelo a esse desfrute turístico e utilitário dos recursos hídricos de nossa serra também prosperava (e ainda prospera) uma irracional prática predatória do meio ambiente.
Entendam como predação ambiental a implantação descontrolada de roças ao longo da serra bem como a proliferação criminosa de queimadas, do comércio de postes, pedras e da fauna silvestre. Tudo isso somado gerou uma violenta degradação ambiental que teve como resultado o definhamento das nascentes e a escassez do nosso mais apreciado recurso. Não dá para esquecer os entupimentos da barragem no final da década de 1980. A cada estação de chuva, a cavidade da barragem ficava completamente preenchida de areia, resultado do assoreamento gerado pelo desmatamento produzido serra acima.
A Canabrava entrou a década de noventa com uma crise profunda de abastecimento de água e com as nascentes e riachos quase extintos. Durante esse período, nada, praticamente nada foi feito para salvar a serra. Quanto à escassez de água, o município foi salvo pela chegada da água proveniente do açude de Mirorós. Uma água, embora potável, com uma qualidade muito inferior ao produto outrora abundante nas grotas da Serra Azul. O povo sofreu para se adaptar ao caldo grosso e meio salobro que passou a jorrar das torneiras vigiadas pelos registros da Embasa.
O período de otimismo que se instaurou com a chegada da água de Mirorós tem dois lados. Por um lado, deu descanso para as nascentes que deixaram de ser sugadas com o fim de alimentar as residências uibaienses e de demais municípios e também estimulou a expansão urbana, mas, por outro, deu a entender que não precisávamos mais dos recursos da serra, podendo-se, portanto, continuar a destruí-la à vontade e de forma voraz... Infelizmente foi o que aconteceu.
A falta de consciência e a desinteligência nossa, não nos permitiram perceber que aquela ocasião seria o momento exato para cuidar da serra, para proteger nossas águas e transformá-las em fonte turística de divisas e de qualidade de vida para Uibaí. Preferimos ignorar tudo isso e destruir cada vez mais nossos recursos naturais, já que o problema hídrico estava resolvido. Santa burrice!

Faltou-nos visão a médio e longo prazo. Infelizmente, não levamos em conta que a barragem de Mirorós também poderia entrar em colapso. E é exatamente isso que estamos presenciando agora. Novamente, o fantasma do desabastecimento ronda a região de Irecê. O baixo nível da água no açude de Mirorós, que abastece 486 mil pessoas em 14 municípios da nossa região, começa a preocupar as autoridades e a virar tema de discussão. O problema é este: as autoridades só se preocupam quando o estrago já está feito. Dados do Ibama e da Embasa apontam entre as causas da diminuição brusca do volume das águas, a degradação das nascentes e das matas ciliares dos rios que alimentam a barragem e o uso abusivo e descontrolado do referido produto.
Em Uibaí, a Codevasf, já ciente da crise de água por que a região começa a passar, resolveu investir na recuperação ambiental da serra, por saber do potencial hídrico que está sendo desprezado ali. E a prefeitura, e as entidades organizadas do município, como vão entrar nessa história? O que estão fazendo? Uibaí tem um produto precioso em seu território e ignora isso. Qual será o preço a pagar? HÁ BRAÇOS!

Alan Oliveira Machado

7 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo Alan! você cita q a codevasf, não por questões de consciênia, já começou a fazer sua parte, e questiona as entidades públicas que se eximiram de culpa e tb por não atuarem na recuperação da área! ótimo tb! mas e vc? o q vc tem feito além de escrever?

Anônimo disse...

Caro anônimo, primeiro, não disse que as "entidades públicas" se eximiram de nada. Apenas perguntei qual o papel delas (agora) nessa história; como vão atuar, ou o que têm em mente. Como cidadão, é importante querer saber sobre essas coisas, não? Com respeito ao que eu tenho feito, te digo o seguinte: primeiro, sou educador, tenho um compromisso com o combate de valores negativos, danosos à sociedade. Escrever é uma forma de atuar... De educar, de formar opinião, de gerar debate e mudança. Acredito na democracia e não se faz democracia sem opinião, debate, questionamento, sem pluralidade de informação. Tenho feito muita coisa no meu dia a dia. Tenho um projeto de arte e reciclagem que atinge escolas... produzo projetos em parceria com ongs ambientalistas... Faço minha parte onde vivo e ainda contribuo como educador... Tiro sempre um tempo do meu trabalho para refletir sobre nosso pé de serra e levantar questões... Acho que faço mais do que muita gente por aí, não? Há braços!alan

Anônimo disse...

Kkk, já percebi que vocês têm “problemas” com pessoas que não se identificam, não é?
O que me deixa intrigada é: - Que diferença faz saber o nome de alguém que pode ou não, ser de fato quem vos fala? Quanto aos projetos desenvolvidos por você, PARABÉNS se isso satisfaz sua condição humana! Quando perguntei o que fazia para mudar a situação, além de escrever, não foi em momento algum em TOM de desprezo ou para diminuir a sua ação denunciativa! Foi tão puramente curiosidade de saber quais projetos são desenvolvidos. E obviamente, como cidadão e educador deve-se praticar ações que questionem, indaguem, problematizem! Sim, é um direito seu cobrar principalmente do poder público um direcionamento para a preservação das áreas devastadas (e principalmente das que não foram ainda degradadas como uma forma de ser uma ação preventiva e não amenizadora, que é o que muitas pessoas ao trabalharem com essas questões sócio/ambientais fazem!) da sua cidade. E assim como você se sente no direito de indagar, EU que sou leitora do BLOG, e não residente do município logo, além do que vocês escrevem me encontro completamente por fora da situação da cidade, também tenho o direito de questionar o que é feito para mudar a realidade do lugar, não? Já que como você mesmo disse “Acredito na democracia e não se faz democracia sem opinião, debate, questionamento, sem pluralidade de informação.” (MACHADO, 2009)
:), "há braços".

GTV BOCA DO INFERNO disse...

Nosso objetivo não foi ofender,caro MACHADO, pelo contrário, a sua opinião é muito valiosa para nós, enriquece o nosso blog!
A gente costuma usar "caro anônimo" simplesmente quando não há alguém definido, seja por pseudônimo, sobrenome ou nome. È um modo de se dirigir ao interlocutor não identificado. Depois, não é verdade que a gente tem "problemas com quem não se identifica". Se tivéssemos não os publicaríamos. No seu primeiro comentário não há nada que nos leve a crer que você se identifica ou não se identifica conosco. Você fez perguntas e obteve respostas, correto? Só isso. Continue participando. Isso faz bem para a democracia.

inquietaserraazul.blogspot.com disse...

Olá, caro anônimo... Um dos nossos moderadores cometeu uns enganos na interpretação do seu segundo comentário, mas o que ele disse a respeito do uso de "caro anônimo" é correto. Não temos nada contra o anonimato. Realmente, publicamos sempre os anônimos que nos chegam. Faz parte do jogo democrático. Você tem todo direito de dizer o que quiser. Se quiser escrever artigos pro blog, também pode. Este espaço é pra isso mesmo. Agradecemos a sua participação.
HÁ BRAÇOS! alan

Anônimo disse...

Olá senhor moderador, como vai tudo bem? Só fazendo algumas correções, quando me referi a identificação foi apenas em relação ao indivíduo que vos fala e não ao laço que caracteriza afetividade, identidade pessoal, cultural ou algo do tipo. Outra observação a ser feita é a seguinte, quando se usa uma frase que já foi proferida por alguém é de bom tom se “aspear” a frase completa e ao final, ou início se preferir, expor o sobrenome da pessoa que primeiro a concretizou, ou polemizou, se for o caso. O Machado ao qual me refiro é o sobrenome de Alan pois, concluo a minha segunda colocação utilizando uma frase que ele escreveu no primeiro comentário! Fico lisonjeada com o convite p/ escrever artigos, assim que eu me dispuser de tempo enviarei com o maior prazer.
: ), Darcy* (*pseudônimo).

GTV BOCA DO INFERNO disse...

Cara Darcy, o professor Alan já havia alertado sobre os equívocos que este moderador cometeu. De qualquer forma agradecemos o esclarecimento. Dioniso