20 janeiro 2011

TUMASA É OSSO!


       Na entrada da Rua do Cascalho, algumas casas adiante, abre-se um vão onde podemos contemplar o mais antigo prédio escolar da Canabrava. Essa construção esteve abandonada por muitos anos na década de oitenta e foi ocupada algumas vezes por necessitados. Uma ou outra família carente de moradia alojou-se nos cômodos decrépitos do velho estabelecimento escolar e garantiu teto aos filhos até situar-se melhor na vida. Outras vezes, a escola abandonada serviu a indigentes e loucos de rua.
       O mais folclórico doido de rua que habitou as dependências da escola desativada foi Tumasa. Uma senhorinha já idosa, de cabelos grisalhos e tronco meio arqueado que a meninada atormentava diariamente chamando de Tumasa é osso. Não sei o motivo exato do apelido, mas a velhinha destemperada subia nas tamancas quando algum moleque gritava próximo ao prédio tal apelido. E não queiram saber o porte dos palavrões cabeludos, das maldições atiçadas por Tumasa nos que se atreviam a importuná-la. Quem de longe via a expressão frágil, amargurada e corroída pela loucura daquela idosa indigente poderia imaginar um monte de coisas, mas quase sempre seus xingamentos ultrapassavam nossa pobre imaginação.
            Bagaceira mesmo ocorria quando alguém se dirigia a Tumasa, nas raras vezes em que ela deixava o cômodo decadente do prédio para angariar alguma coisa na rua, e dizia-lhe que estavam roubando o ouro dela lá no prédio. A velha virava o satanás, soltava a língua para cima do insolente e se o gozador vacilasse era capaz de tomar uma feroz cabada de vassoura na cabeça.
           -Filho da puta! Desgraçado! Vai entrar dentro do cu de tua mãe satanás excomungado! Eu te mato e te mando para o fogo do inferno se tu roubar meu ouro 24, peste das profundas!
            Era mais ou menos assim que a velhinha saltava nos moleques atrevidos. E xingava e provocava e pragueja até não mais parar. Ás vezes passava o dia todo xingando por causa de alguma insolência de que fora vitima pela manhã.
                       Tumasa era alvo de brincadeira de adolescentes, de adultos e da molecada em geral. Não apenas ela, mas quase todos os desajustados sociais com algum distúrbio mental que perambulavam pelas ruas da Canabrava. E era degradante a situação humana dessas pessoas. No fundo foram abandonadas por familiares, amigos e conhecidos. Viram-se forçadas a encarar a aspereza das noites dormidas na rua e das mais básicas privações.
                       Tive a oportunidade de testemunhar a existência de alguns desses excluídos. Alguns da família mesmo como Chico de Elói, Firmício, João Tolo e outros que nunca soube exatamente de onde vieram como Tumasa, Cirço e Bira Doido que dormia dentro de um carro velho dos anos 50. Se não me engano um Opel Olympia Rekord verde abandonado na porta de Dona Petronila, no Largo do Cruzeiro.
                       Todas essas almas gauches, cada uma com sua característica marcante, acabavam adotadas pelo povo e não deixavam de ser vistas com certa compaixão ou simpatia pela maioria da população. Porém poucos paravam para pensar particularmente na condição de abandono, no deus-dará em que se resumiam suas vidas. No fundo, sempre reinou uma estranha relação de amor e repulsa por esses entes humanos, uma relação pautada pela mistura de sadismo, afeto, simpatia e medo. É como se eles fossem nossos brinquedos dos quais abusávamos sem perder a noção dos limites que nos separavam deles e sem saber também que fim levariam. Para mim, Tumasa e Bira Doido sumiram misteriosamente do mesmo jeito que apareceram.
                       Nita Doida, de quem me lembro agora, também sumiu. Mas antes, desenhou, riscando a areia com uma vareta de malva, sua casa imaginária na frente do prédio velho do Cascalho. Nessa casa, que não passava de riscos no chão, obrigava Manoel Guimário, seu filho de dois ou três anos, a não ultrapassar os limites. Impedia a desafortunada criança de pisar nas linhas riscadas no chão como se ela estivesse subindo nas paredes da casa. E Nita ficou por ali a mercê da intolerância e do abandono com a guarda de uma criança inocente. Coisa difícil de entender. Como a sociedade não se deu conta de tal situação absurda? E ao que parece todos sentiam o de sempre: simpatia, pena e desprezo por aquela mulher sentada na areia ao lado de uma trouxa suja e trapenta, com os cabelos desgrenhados e o semblante transtornado, conversando coisas inaudíveis, ensimesmada, dando-se conta do mundo real nos raros momentos em que tinha de ralhar com o negrinho Manoel Guimário. E não poucos se furtavam ao prazer sádico de amolar a paciência de Nita , arrancando-a de seu mundo imaginário, vendo-a se desfazer em ataques agressivos, gritos e palavrões.
                       Tumasa, Nita, Bira, Cirço, Tó, Firmício, João Tolo e Chico de Elói, entre tantos que se foram, mostraram-nos do que somos capazes. Temos tudo do bom e do pior e não conseguimos sempre dominar bem as nossas escolhas, se é que de fato conseguimos escolher. Há braços!



6 comentários:

Anônimo disse...

Hey, I am checking this blog using the phone and this appears to be kind of odd. Thought you'd wish to know. This is a great write-up nevertheless, did not mess that up.

- David

GTV BOCA DO INFERNO disse...

Hello David, welcome to our space for discussion and reflection. Há braços!

gustavo disse...

depois de tanto hey,hello etc. e tal,vi que tenho mais afinidade com a linguagem dos loucos mesmo.
dos que conheci,nita,tó,bira,joão tolo,le digo amigo que destes somente bira doido(da cebola)escafedeu-se,sumio de fato e não tinha familia.joão tolo era irmão de dona tereza,mãe de deba da lagoinha,de cristiano que trabalhou muitos anos no manoel levi etc.este(joão tolo)salve engano, como muitos que não foram mencionados(zé de nita da veredinha,caramba do sobreira etc.) morrreu atropelado quando perambulavam por nossas estradas.tó também levou o mesmo fim.e nita amigo,até minha ultima ida a uibai ainda estava lá,na casa de sua irma(onde reside a alguns anos)lia esposa de ronaldão que tem(tinha)um pequeno boteco quase em frente ao colegio(manoel levi).
porém,tumasa,cirço,firmicio e chico de elói,estes não tive o prazer de conhecer e trocar um dedo de prosa,mas já ouvi minha mãe falar muito de todos estes pois os mesmos como tantos outros(pedrão pexim,bibi do caldeirão,armando(chato) tb do caldeirão,toinho de maria cabra) tinham passe livre la em casa.
ei cabra véi,foram muitos doidos que beberam de nossa água!!!

GTV BOCA DO INFERNO disse...

É isso! Foram muitos!

baltazar disse...

Que texto relembrativo de lebranças lenbradas, eu me senti no "cascalho". cara.

Anônimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu