29 julho 2010

NO RASTRO DA MPB

Hoje vou dar uma palavrinha sobre MPB. Desde muito tempo, seja  no meio universitário ou nos meios mais descolados, não se questiona muito qual é o melhor tipo de música produzida no Brasil. Basta olhar perfis de orkut, facebook, blogs etc para matar a charada. Onde está escrito estilo musical preferido, o povo taca logo MPB sem titubear.  Mesmo preferindo ouvir Arroxa, Calipso ou Sertanejo, registra lá MPB. É uma questão de parecer inteligente, marca grudada na MPB pelos esquerdistas. De fato, o estilo MPB tem uma tradição de qualidade constituída na origem cuja característica principal é unir bons arranjos melódicos a letras em que predominam certas preocupações poéticas. Hoje isso não tem muito cabimento. Se pegarmos Chico Buarque e Caetano Veloso, dois estilos distintos, porém consolidados desse tipo de música, confirmamos essa preocupação com  harmonia e arranjo e com a elaboração poética das letras, coisa que muitas vertentes musicais discriminadas por gente estreita  fazem atualmente com igual competência.
 MPB é uma sigla estranha. O conteúdo que viceja por trás dela não é tão popular quanto o nome indica, nem tão brasileira quanto se autodenominou no início, seguindo o nacionalismo barato da esquerda da época. O que chamamos de MPB nasceu propriamente em 1965, a partir das fusões melódicas da Bossa Nova, criada um pouco antes a partir das experiências com o Jazz, o Samba e o Bolero. A batida de João Gilberto e seu modo sóbrio e sereno de realização musical ganhou imitadores apaixonados no meio artístico e musical. Mais adiante, como esse meio era dominado por correntes comunistas, passou-se  a unir a boas invenções melódicas causas sociais, temas ideológicos e experimentações poéticas, como orientação imperativa. O ponto de equilíbrio dessas experiências foi atingido a partir de 1965 com o primeiro Festival de Música Popular Brasileira. Ao longo dos festivais, pari passu com a conjuntura política brasileira, permeada por certa hegemonia cultural da esquerda, as preocupações sociais viraram quase que uma obrigação nas letras de canções. Mas a MPB nunca foi popular. Foi, isto sim, uma vertente de elite, moldada no meio universitário e no fervor de reuniões intelectuais. A música realmente popular naquele período foi a da Jovem Guarda. Música fácil, de massa e que levou multidões ao delírio. Como se pode constatar, a sigla MPB é inadequada até hoje. Música Sertaneja, Arroxa, Axé e Calipso são bem mais populares. Na verdade, na década de sessenta mesmo havia gente que chamava MPB, de forma bem mais pertinente, de Música Moderna Brasileira, ou seja, MMB, mas MMB não tem o mesmo apelo retórico e político que MPB.
Depois que a MPB se livrou dos excessos ideológicos que quase a transformaram em panfleto político no fim dos anos de 1960 a vertente que explorava o viés mais poético nas letras tornou-se predominante e passamos a apreciar criações mais interessantes de se ouvir e mais duradouras. A vertente mais panfletária de protesto migrou para o Rock dos anos de 1980. É bem nessa época que vemos surgir bandas como Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana e Ultraje a Rigor, entre outras, que bancam em seus albuns entre algumas belas letras, panfletos vagabundos contra a polícia, a educação, a mídia, a religião, enfim, toda sorte de temas cristalizados pela esquerda como obrigação da música não alienada.
Hoje, usando uma expressão de Torquato Neto, a gente sabe que predomina a geleia geral na música brasileira. É uma bobagem ficar se prendendo demais a rótulos e a cerceamentos ideológicos toscos. Qualidade é uma coisa muito relativa. O que é muito popular nem sempre é ruim e nem sempre é coisa boa. Isso serve também para a impopular música popular brasileira. Há muita baboseira rodando e sendo louvada por aí nos circuitos  intimistas como se fosse a melhor música brasileira, a última bolacha do saco. Nada a favor e nada contra! Cabe ao leitor fazer suas escolhas e pronto! Há braços!

28 julho 2010

BRASÍLIA E O CAOS POLÍTICO

Brasília passa pela pior fase da sua história política. Mesmo com todos os defeitos políticos e sociais que pode ter uma Capital transplantada, ela sempre se pautou por alguma discrição e até mesmo certa frieza. Agora, a capital vê sua intimidade escancarada e o cheiro fétido que já exalava aqui acolá dos palácios e órgãos públicos tomou conta das ruas e largas avenidas. 
O principal responsável pelo estrangulamento político do centro do poder no país foi o Lullismo. As coisas começaram a ir longe demais devido à sanha oportunista do lullismo, quando na última eleição fraudulenta de Joaquim Roriz, toda documentada,com uso e abuso da máquina pública, esse Pantagruel inventado pelo petismo interveio subterrâneamente com a finalidade de assegurar a posse de Roriz à revelia de tudo, até mesmo do PT local. Garantida a permanência de Roriz, consolidou-se de vez a esculhambação política local e não podia dar em coisa pior. A farra com os recursos públicos contagiou tudo ao redor. Na corte de Roriz, os súditos vinham de todas as bases políticas. Deu no que deu! Há braços!

27 julho 2010

O MST E O BLEFE DA REFORMA AGRÁRIA: O BRASIL É A GRANJA DO SOLAR



Houve uma época que eu pensava ser o MST uma organização preocupada com a situação de miséria no campo, empenhada em lutar para que o homem do campo pudesse ter sua gleba com o fim de produzir e garantir uma vida digna. Engano meu... engano de muitos... Há pelo menos vinte e cinco anos esse movimento, escorado na clandestinidade jurídica, promove invasões, ocupações e arruaças no campo e nos centros urbanos... Há muito tempo ele recebe dinheiro público e terras e fazendas e insumos e assistência pública facilitada, mas não se vê retorno algum. O que se vê é a agressividade das ações crescer cada vez mais.
O fato é que o MST não está interessado em reforma agrária, em melhorar situação no campo ou algo que o valha. A ele interessa a revolução campesina e, pelo nível dos dirigentes, não é difícil entender que querem uma revolução à moda da Revolução dos Bichos, de George Orwell. Até porque seu Stedile não é, não foi e nunca será um camponês sem terra. É um vigarista, um tocador do rebanho de miseráveis, despojados de tudo, que o seguem na ilusão de  conseguir seu lugar ao sol. Stedile é apenas um burguesão, um aspirante a porco Napoleão, um chefão do petismo no mundo rural. O Brasil é a sua Granja do Solar.
Mas foi-se o tempo em que o MST vivia apenas da ostentação da massa andrajosa do campo, tão bem propagandeada por Sebastião Salgado, outro burguesão, rei do petismo fotográfico. Nos tempos do lullismo, eles recebem verba e armam acampamentos fantasma ao longo das rodovias pelo Brasil a dentro apenas com a finalidade de fazer pressão e conseguir mais verbas ainda. Nas rodovias que cortam a Bahia, por exemplo, há dezenas desses acampamentos vazios que se povoam com militantes das cidades mais próximas em momentos estratégicos e no resto dos dias e meses recebem um ou outro membro em revezamento para vigiar as barracas. Nesses dias de visita alternada não é raro se ver uma caminhonete nova aqui ou um carro zero km acolá encostado entre as barracas. É a Revolução dos Bichos a pleno vapor. A essa altura, Napoleão e Bola-de-Neve já devem estar palpitando de desejo, sonhando em passear sobre dois pés pelos confortáveis corredores da casa grande. Há braços!

26 julho 2010

PEDINTE TAMBÉM PAGA!

Neste período de inverno em Ilhéus as chuvas deixam o mar (permanentemente azul no verão) turvo e agitado. Essa mudança atrai turistas alternativos. Aos poucos se abancam nas praias com barracas e pranchas grupos de surfistas de origens variadas. O comércio turístico se recolhe no úmido dos estabelecimentos. Mas há uma birosquinha de esquina que não se  importa muito com a variação do clima e das estações do ano. Trata-se de um bar sem nome em uma esquina da rua Jacarandá em frente ao supermercado Meira, ali na saída para Olivença. O estabelecimento pode não ter nome, mas o proprietário tem nome de locutor de rádio: Mário Galvão. Seu Mário, um simpático senhor grisalho de camisa florida a la Jorge Amado, atende com atenção e cordialidade o meu pedido de informação, um pouco após eu ter comprado o cartão para recarregar o celular. Quero saber a respeito de um bom restaurante nas imediações. Ele pega no meu braço e indica uma esquina na rua adiante onde há, segundo ele, uma excelente churrascaria.  
De acordo com seu Mário, sua esquina é alvo dos folgados e desocupados de inverno a verão. Talvez por ser em uma área de concentração de comércio relativamente próxima à praia e diante de um dos grandes supermercados dessa terra grapiúna. Ali é visível o vaivém de gente pedindo copo d água, pleiteando fósforo para acender cigarro, solicitando informação, caneta para anotar endereço... Tanto tipo de pedido, tanto pidão e pedinte que não sobra tempo nem para varrer a varanda do boteco, diz o comerciante apontando para o chão malhado de areia, rastros e folhas.
 A paciência de seu Mário chegou ao limite quando  começou a aparecer frequentadores apenas para contar os próprios problemas e infortúnios domésticos. Mas ele resolveu por fim ao assédio inconveniente dos pedintes depois que fez um cálculo meticuloso dos gastos que angaria emprestando fósforos, servindo copos dágua, arranjando um inocente copo descartável aqui, um guardanapo solitário acolá, cedendo seu tempo para informações e gentilezas que poderiam estar a serviço apenas das pessoas que consomem no estabelecimento. Eram uns bons trocados perdidos no fim das contas. Então Seu Mário Galvão resolveu espantar os pidões afixando o curioso e divertido cartaz que segue ao lado na frente da birosca. A coisa pegou e virou folclórica, mas seu Mário, bem humorado, acaba se divertindo com o sarro dos pidões habituais que perderam a folga. Confesso que depois de ler o cartaz fiquei  meio sem graça e perguntei para o botequeiro com nome de locutor de rádio se ele iria cobrar pelas informações que me prestou, ao que seu Mário bateu em meu ombro sorrindo e dizendo: você já consumiu! Para consumidor é de graça! Há braços!

25 julho 2010

AS FARC FAZEM PARTE DO PROJETO PETISTA

O clima eleitoral começa a esquentar. E o petismo ensaia o tempo todo tapar o sol com peneira. Os petistas, via Fórum de São Paulo, têm uma ligação ideológica, política, tática e estratégica com as Farc. As Farc constituem uma organização criminosa. Sequestram, matam, têm campos de concentração na selva, produzem e vendem drogas para o mundo. São um bando, uma quadrilha com a capa vermelha da esquerda. Agora, o petismo e o lullismo tentam se desvencilhar da conexão com os narcoguerrilheiros puramente por conveniência eleitoral. Para isso, convocam um batalhão de jornalistas comprados e uma esquadra de jornais vagabundos. Lulla, que esta semana se comparou a Jesus Cristo novamente, certa vez disse, para justificar o enriquecimento meteórico e bastante suspeito do filho Lullinha, que seu filho era um Ronaldinho dos negócios. Ninguém caiu na conversa. Pois então, o petismo não tem ligação com as Farc tanto quanto Lullinha é craque nos negócios. Há braços!

24 julho 2010

O PAROXISMO AMOROSO


Segundo o Dicionário Aurélio Séc. XXI, fanático é aquele que se considera inspirado por uma divindade, pelo espírito divino; iluminado; que tem zelo religioso cego, excessivo; Fanatismo, poema de Florbela Espanca, poeta lusitana, que segue a forma fixa de soneto, reflete o sentimento amoroso exasperado em que o eu apresenta-se completamente tomado pelo outro, produzindo quase que a neutralização total do eu. Logo na primeira estrofe do soneto, a voz poética declara-se perdida, mas essa perdição não significa a falta de um caminho, ou a indecisão com relação a que rumo tomar, pelo contrário, reflete uma alma neutralizada, fechada para si na medida em que só consegue perceber o outro.

Minh’alma de sonhar-te anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não é sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Na primeira estrofe acima composta de frases feitas, comuns ao discurso amoroso: sonhar contigo, andar cego de amor, razão do meu viver, a poeta estabelece uma intensificação do estado de espírito natural ao sujeito do amor, diga-se a propósito, conforme Fernando Pessoa, estado em que as declarações amorosas ganham nuances ridículas, necessariamente ridículas, mas no qual ainda resta uma distinção entre o eu amoroso e o outro amado. No caso, o outro é a razão do viver do eu amoroso. Até o terceiro verso do poema, ainda se nota a separação entre o amante e o amado. A intensificação desse sentimento, entretanto, anula completamente o eu amoroso preenchendo-o com o outro, objeto do amor, como podemos perceber no enfático último verso da estrofe a que estamos nos referindo: Pois que tu és já toda a minha vida! Nesse caso, o eu dá lugar ao outro e apenas o outro existe ou necessita existir. Esse movimento de anulação da duplicidade que compõe o jogo amoroso ganha então tinturas de fanatismo.
O fanatismo, por apagar o eu amoroso, ganha tons de loucura, de ausência de critérios para julgar o mundo ao redor, aliás, o objeto amoroso passa a ser o mundo, porém um mundo restrito, estreito,  repetitivo e limitado que só o fanático, na sua ânsia louca, não o percebe como tal. Pelo contrário, esse ente, entorpecido pelo desejo amoroso, sente o outro como algo profundo, inexplicável, um mistério eterno a ser desvendado.

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo o meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma coisa tantas vezes dita!

A segunda estrofe acima confirma a completa entrega a um sentimento obsessivo, fanático. Aqui, validando o conceito oferecido pelo Aurélio, o sentimento  alcança a devoção cega. O outro é algo divino, o mistério do mundo, um livro enigmático ao qual se deve dirigir a vida e os olhos incontáveis vezes em busca de conforto, porque o outro é tudo, é Deus.

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

Para o eu amoroso, tomado pelo fanatismo, só há uma verdade: o outro inflacionado, hiper-real que ele criou e o qual agora é o sentido da sua existência. Por esse ângulo, nada que não represente essa totalidade será digno de crédito. Toda conclusão que contrarie as expectativas desse eu fanático, a ele será motivo de riso, pois  ele está possuído e é possuidor dessa força eterna a qual deve adorar e seguir como um Deus: o outro é o Princípio e Fim!...

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."

Vê-se, assim, o fechamento categórico do soneto com a mais genuína declaração de fanatismo religioso. O objeto do amor adorado e celebrado como o princípio e o fim de tudo. O fanatismo amoroso descrito no poema, reflete a natureza ensimesmada do eu poético que se perdeu no sentimento amoroso, encontrando tão somente o outro em todo  e qualquer lugar para onde dirige o seu espírito.  HÁ BRAÇOS!

23 julho 2010

OLHA O CHAPOLIN AÍ GENTE!

A versão autoritária do Chapolin Colorado ataca novamente. Hugo Chaves, o fantoche do ditador moribundo Fidel Castro rompeu relações com a vizinha Colômbia. Tudo teatro barato. O fato é que sempre que se aproximam as eleições na Venezuela, o fracassado e incompetente governo bolivarista inventa alguma patacoada para criar animosidade na massa venezuelana, favorável à eleição de seus candidatos. A velha estratégia de insuflar o patriotismo ou o nacionalismo barato, comum em regimes totalitários, como forma de desviar a atenção do povo da situação de miséria social e institucional e proteger os ditadores responsáveis por tais desgraças continua sendo usado por Chaves e sua trupe. Detalhe: dessa vez o Chapolin da Venezuela estava ao lado do também fracassado Diego Maradona. De pantomima em pantomima esse tipo de gente vai se perpetuando no poder. Há braços!

20 julho 2010

UM MAMOEIRO

Um mamoeiro cordato
Puro silêncio  e distinção
Vulto retilíneo sob a chuva fina
Sem a companhia de ninguém
Amontoado de seios verdes
Como olhos tristes voltados para o chão
Sem o açoite do vento
 Salpicado pela persistência da chuva
Em suas folhas largas e indiferentes
Sem voz alguma que lhe denote a existência
Seja de  figueira, sofrê, limeira ou sabiá
Apenas a solidão retilínea
O toldo vazio no abandono do tempo.


19 julho 2010

CAPOTE E A ESQUERDA

Outro dia reli “O Capote”, de Nikolai Gógol.  De vez em quando é bom fazer um reencontro com a visceralidade da Literatura Russa.  O Capote é uma dessas novelinhas simples que se não fosse pelo fato de um casaco ser personagem mais do que o próprio personagem  Akaki Akakiévich, que se não fosse pelo fato de ser  criação de um dos grandes russos, passaria em branco.
Ali vê-se a que ponto um homem  transforma um objeto em obsessão, a que ponto um objeto, dentro de uma degradação neurótica,  transforma um homem em coisa.  Como o desespero desfigura a vida e a realidade; como o apego cego ao capote faz com que o homem se pulverize ao perdê-lo. Akaki, depois de ter seu casaco roubado, perde-se  de si mesmo.  Dilui-se ao leu. Enlouquece e morre, retornando como uma sobra na noite fria a atormentar todos aqueles que usam capotes.
Essa  releitura casual da narrativa de Gógol  acaba me fazendo lembrar de certa turma da esquerda.  Eles  e suas causas muitas vezes absurdas, grudadas na pele como o capote de Akaki  Akakiévich; eles  às vezes tão viscerais em suas superficialidades, em seus dramas morais e em suas defesas retóricas que sequer conseguem enxergar os abismos  que cavam  para cair mais adiante. Que sequer sentem o destroçar das fantasias e quando se dão conta, se pulverizam ao leu como Akaki Akakiévich sem o seu capote. Há braços!

15 julho 2010

BOCA DO INFERNO-57: O OURO DE MURIBECA- I

A algazarra de pardais na copa do coqueiro ao lado da casa contrastava com o leque solar que se abria lentamente no horizonte. A manhã se anunciava mais uma vez no sertão. Segunda-feira. Ali é dia de feira, dia de repor a dispensa da semana. Ele sarrabuiou água fria no rosto, depois foi cutucar o braseiro sob a trempe do fogão de lenha com o tino de passar um café fresco. Feito isso, rodou a tramela da porta dos fundos e dali mesmo do batente atiçou umas quatro mãos de milho às galinhas que já tumultuam o terreiro. Mais nada. Ele era ele! Só ele! Ele só. Sem nome nem nada. Apenas um homem solitário, rústico e desinteressado de lordezas. O olhar morto, antigo como a casa de taipa que o abrigava,  não carregava mais do que amarguras, esforços inúteis e rompantes tímidos pela sobrevivência. Passou a vida inteira correndo trecho pela serra em busca de uns tais entaipados, de um tal ouro de Muribeca. Perdeu tudo: família, esposa, amigos. Tudo e todos em função de seus delírios.
A história de Muribeca correu solta por muito tempo naquele pedaço do sertão. O homem sabia que se tratava da história de um senhor português, dono de minas de ouro nas lavras de um povoado da chapada, que sobreviveu a uma rebelião selvagem dos escravos da mina próxima à casa grande. Consta que esse senhor, conhecido pela alcunha de Coronel Moreira, chamado pelos escravos de Muribeca, embrenhou com a família no bravio da caatinga a fim de escapar da fúria de uma centena de negros revoltados. Arrastou consigo o que pode: a mulher, duas filhas e seis mulas com bruacas abarrotadas de ouro.  Perdido na brenha das matas espinhosas, viu tombar os membros da família um a um com o sangue fervendo de malária. Antes de morrer abatido pela doença tratou de esconder seu  ouro em lugar longe da vista dos cobiçadores.

Essa história tanto rondou a cabeça do homem que acabou enredando sua vida. Tivera aos 25 anos um sonho revelador... Seu destino, sua desgraça. No sonho, aparecia um velho barbudo com um pote debaixo do braço cheio de moedas de ouro. O velho dizia que aquilo seria dele, se ele não desistisse de buscar, e antes de se apagar como névoa no sonho, indicou a direção da serra. Aquela imensidão de serra. Desde que tivera o maldito sonho não descansara. Viveu a rodar por grotas, boqueirões e encostas. Garimpou cristais, desavenças, doenças silvestres e até mesmo veneno de cobra, mas nada de entaipado, nada de pote, nada de ouro. A esposa desistiu de sofrer com a ausência do marido e com sua presença delirante, encasquetada, ensimesmada, sem outro assunto que não o sonho, o ouro, os entaipados. O velho disse, o velho... Ele veio e disse e eu vou achar... É meu ele disse . Um potão cheio. Guenta, isso é pouco leite perto do que vem. O velho disse, o velho barbudo. Muribeca! Assim atravessava as madrugadas num entra e sai danado do casebre, picando fumo, tomando café, pitando e matutando onde mais poderia estar essa dádiva que o velho lhe revelou num sonho. Não desistiria nunca, jamais. Não era homem de dar pra trás, de correr do destino.
Foi então que numa tarde cismou que a coisa tava enterrada no boqueirão do urso. Juntou a capanga com uma socadeira, assoviou para o cachorro magro e mais uma vez bateu perna para a serra. A noite já ia alta. o breu engoliu tudo . Só silvos, ruidos, zumbidos e gorjeios estranhos lhe faziam companhia. A caatinga braba e o pedregulho iam sendo vencidas com sofreguidão por aquela mente determinada, por aquela alma incutida.

13 julho 2010

LULLISMO E CINISMO, TUDO A VER!

Guillermo Fariñas,  preso político cubano em greve de fome que durou 4 meses
Reparem como o cinismo é uma marca clássica dessa gente lullista. Este blog comentou em algumas postagens durante o ano de 2009 o alinhamento do governo com regimes autoritários, criticou a intervenção brasileira em Honduras, criticou o comportamento desprezível de Lulla com respeito à morte do pedreiro, preso político da ditadura cubana, Orlando  Tamayo, quando o pedreiro, morto por abandono em uma greve de fome pela libertação dos presos políticos de Cuba foi comparado a bandidos comuns por Lulla e ignorado em favor da ditadura dos irmãos Castro. Enquanto pessoas inocentes continuavam presas em Cuba, Lulla investia 600 milhões de dólares na reforma do porto de Ariel, detalhe, os nossos portos continuam lascados.
Mas a pressão internacional aumentou, e a greve de fome de outro preso político, o psicólogo Guillermo Fariñas, aumentou a mobilização internacional contra a picaretagem do regime cubano. Encurralado, Raúl Castro se viu obrigado a libertar agora 52 presos de consciência. Isso foi mérito da mobilização internacional, da pressão de povos democráticos, mas o que disseram  esta semana os cretinos Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, os cérebros internacionais do lullismo e do cinismo, sobre a libertação do presos de Cuba? Acreditem! Eles disseram que foi o lullismo quem libertou os 52 presos políticos cubanos. Pode? Óleo de peroba é um produto em extinção no soviete lullista. Lulla quando esteve em Cuba na época da morte de Orlando Tamayo, além falar as cretinices que falou sobre o morto, sequer quis receber uma carta dos presos pedindo ajuda, pedindo mediação para a situação cubana. Ah é, tinha me esquecido ele só faz mediação em favor de ditadores como Ahmadinejad e Zelaya !  Há braços!

12 julho 2010

SOBRE IDIOTAS E IDIOTICES


Hoje me lembrei de quando laçaram aquele filme Lamarca. Lamarca era um completo idiota. Quem morre naquelas circunstâncias e fazendo o que ele se propunha a fazer não bate bem da cabeça. Embora a biografia do Capitão Lamarca fosse de uma pobreza gritante,  ainda tentaram transformar o sujeito em heroi. Por falar nisso,  nos anos oitenta havia um vizinho no Pé-de-galinha, filho de Bamba, que guardava um livro sobre Lamarca escrito por um vigaristinha desses que engrossam as fileiras do PT, um tal de Emiliano José,  um sujeito meio troncho da cabeça, meio esquizofrênico que só abre a boca para falar da ditadura militar e defender a ditadura cubana e a venezuelana como ninguém. Pois bem, esse  vizinho tratava o livro de Emiliano como se fosse uma coisa muito importante,  uma coisa muito valiosa e sagrada e proibida e secreta. Deu um trabalhão para ele me emprestar a porcaria do livro.  Na época eu, cheio de inocência e de estupidez ideológica me indignei com os maus tratos que sofreram aqueles camponeses de Buriti Cristalino. Se soubesse que pelo menos setenta por cento do que estava escrito ali era vigarice pura bordada pela mão panfletária do tal Emiliano José  certamente teria dado mais crédito às desconfianças que pipocavam aqui e ali durante aquela leitura adolescente.  Fui enganado tanto quanto Ronaldo de Bamba que me emprestou aquele amontoado de cretinices em formato de livro.
Quando saiu o filme, e era disso que pretendia falar em primeiro plano, fui ver uma apresentação na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), onde estudava. Um professor  daqueles de barbichinha de Lênin  e sandálias de couro iria comentar  a boniteza de filme que os Barreto fizeram  sobre o comunista Lamarca. Para minha surpresa o cara tacou o porrete no filme, mas não porque o filme era de uma idiotice deplorável e sim porque, acreditem, havia no filme, segundo  o barbichinha de Lênin, um ranço pequeno- burguês. Aí  o Lênin de precata nordestina da UFG apontou  a cena do filme em que a companheira de Lamarca foi abatida dentro de um apartamento em Salvador. E soltou farpas revolucionárias defendendo que o filme ficava muito preso à intimidade, ao ambiente fechado de apartamentos etc , coisas tipicamente burguesas, segundo aquele sábio militante. Ou seja , na visão crítica do imitador de Lênin a porcaria do filme deveria ser mais idiota ainda.
Recordo que na época, mesmo ainda com cara de idiota, iludido com a conversa fiada dessa gente, já não era mais inocente e fiquei a refletir sobre  o quanto é boçal taxar a individualidade e  a intimidade como coisas “pequeno-burguesas”  como se isso fosse um crime, a violação de um tabu ou algo que o valha. O Lênin da UFG não disse nada da cena patética daquele tal Zequinha fictício arrastando feito um jumento  um Paulo Betti nas costas,  com aspecto andrajoso e uma expressão de imbecil indescritível e nem daquela cena final de Lamarca estendido com os braços abertos como se fosse Cristo crucificado.  Disso ele não falou . Para o barbicha, o ridículo Capitão Lamarca era mesmo um heroi, um salvador crucificado pelo sistema e aquela comparação caía bem como estratégia de enganação das massas. Todo mundo já sabe como esse povo gosta de inventar mitos e causas.
Mas para quê relembrar experiências tão toscas? A resposta é simples, para os desavisados perceberem com que tipo de matéria tem sido feita ao longo dos anos a cabeça dos universitários. Para dizer também  que a maioria deles sai da faculdade diretamente para a sala de aula levando consigo um rol de bobagens e condicionamentos ideológicos propícios a reproduzir a mesma besteirada de que foram vítima. Poucos se dão conta de o quanto foram enganados e de o quanto reproduzem a enganação. Há braços!

11 julho 2010

QUEM PODE MAIS?

Eu não aguento essa conversa mole
ninguém me salva, ninguém me abole
não tenho jeito, só mesmo o tempo 
é quem me engole.
mas me vomita de tempo em tempo
sou indigesto, vou pro relento
quem pode mais que o próprio tempo?
quem se remexe, em movimento
mata a dormência
mata o silêncio
quem pode mais que o próprio tempo
é mais que Zeus, é mais que o vento!
Não tenho forma, não tenho fôrma
tenho desejos
tudo eu invento.
(dioniso tamanduá)

09 julho 2010

MITOS SÃO CONSTRUÇÕES E NÃO ESTÃO LIVRES DA DEMOLIÇÃO

Ao lado, A condição humana (1934), pintura de René Margritte.
Sou do mundo da linguagem, acho que já disse isso por aqui em algum lugar. Pensar por esse caminho quer dizer um monte de coisas. Para mim, em princípio, quer dizer que a linguagem   ( linguagem em sentido  bem lato) estabelece a ordem num mundo sem ordem. Se a ordem do mundo é uma construção, o que move o meu espírito é a preocupação constante de saber como se vai montando a ordem ao longo do jogo simbólico ininterrupto. Quem atribui sentidos a determinados signos e quem  organiza os sentidos em redes de significação que vão constituindo campos ideológicos? Sim, porque só há ordem se houver sentido. Importa-me saber e perscrutar, e entender como esses campos vão capturando indivíduos e sujeitando-os, melhor, transformando-os em sujeitos. Ou mesmo, como os indivíduos, com os desejos dispersos na massa simbólica e movediça, vão se territorializando, se fazendo sujeitos em zonas de intensidade. 
No texto anterior, manifestei minha descrença na pureza humana. Na verdade, estava apenas exercitando essa consciência de quem se sabe irremediavelmente preso ao mundo simbólico, de quem compreende a  impossibilidade de saltar para fora dessa teia de sentidos, mas que bem pode, sabendo-se parte dela, desvendar seus segredos e desatar nós desnecessários; cortar fios estúpidos e desacreditar  redes de sentidos nefastas, ou pelo menos apontar quem organiza os novelos e para quê. Nesse enredo, entra também a crítica que tenho feito a certos mitos, ou ao apego cego a mitos. Não há nada de purista na crítica. Não posso ser purista se não acredito em pureza. De fato, de tudo que tenho dito, não fica difícil concluir que mitos são importantes tanto quanto qualquer história real. Há bastante tempo Claude Levi-Strauss já postulara isso em estudos antropológicos consistentes.  Onde está o erro então? O erro está na vigarice com que muitos vêm  trabalhando na elaboração de mitos toscos, com a finalidade única de sustentar causas descabidas e enredos falaciosos. Desse modo, não ponham mitos de araque no meu caminho, pois faço questão de arrancar-lhes a falsidade e a má-fé pela raiz. 
O próprio Lévi-Strauss sempre demonstrou muita cautela ao tratar do assunto, como podemos perceber  na passagem de Mito e Significado a seguir: As histórias de carácter mitológico são, ou parecem ser, arbitrárias, sem significado, absurdas, mas apesar de tudo dir-se-ia que reaparecem um pouco por toda a parte. Uma criação «fantasiosa» da mente num determinado lugar seria obrigatoriamente única – não se esperaria encontrar a mesma criação num lugar completamente diferente. O meu problema era tentar descobrir se havia algum tipo de ordem por detrás desta desordem aparente – e era tudo. Não afirmo que haja conclusões a tirar de todo esse material.  Pois bem, vamos perguntar com Lévi-Strauss: qual a ordem "por detrás" do mito do Vicente Veloso heróico? A necessidade de quem ele vem satisfazer? Qual rede de sentidos ele alimenta? Qual teia ideológica ou fronteira territorial ele faz prosperar? Quem lucra com essa rede de subjetivação? Há braços! 

06 julho 2010

POR TRÁS DA PUREZA, O DURO MUNDO REAL

Eu não acredito na pureza humana. Acredito na pureza de qualquer animal que não urdiu um novelo de superioridade e bondade em torno de suas fraquezas, mas esse não é o nosso caso. Vivemos o tempo todo tentando evitar o que somos. Pulamos de barco em barco, de naufrágio a naufrágio, abraçados cada vez e sempre a sonhos e nunca nos afastamos desse porto solar atormentado pelas sombras inconvenientes da carne e do sangue. A pureza é uma construção relativamente recente e desde a sua invenção tratamos de afastar dela tudo que é humano, demasiadamente humano. Ser puro é praticamente não participar da espécie, não participar do mundo das vísceras , dos instintos que como uma agulha vão puxando a linha dos sonhos para fixá-la como enredo de alguma pretensão, de alguma crosta protetora.  

05 julho 2010

UM POEMA

este poema é um paciente
deitado no leito branco da folha
a espera de alguém 
que lhe tire o pulso e a temperatura
que lhe diga palavras de esperança
e lhe ensine o lado bom de viver
este poema é só isso
não dá lições a jovens revolucionários
nem distribui chocolates em forma de coração
a mocinhas românticas
não prediz o amanhã
nem espalha as cinzas do agora
este poema não espera a compreensão de ninguém
nem o olhar paternal dos dos médicos e enfermeiros
apenas jaz recostado no branco do leito
sob sua rala colcha de metalinguagem.

24 junho 2010

NOVO FOCO

Caros leitores, em breve este blog passará por mudanças. Entre elas estará a mudança de foco, o redirecionamento de prioridades. De uma coisa sabemos, Uibaí não estará mais no eixo da discussão. Não há mais o que fazer por ali. Além do mais, contrariando Fernando Pessoa, o rio da minha terra não é o melhor rio apenas por ser o rio da minha terra. O horizonte é amplo. Venham conosco e andaremos por   outras searas. Vamos dar novos voos críticos. Nossos depreciadores, que estranhamente também são copiadores e deturpadores do que dizemos aqui, vão ficar meio órfãos (Freud explica!kkkkk). Já viciados em passar por esse blog todos os dias, mais vezes até do que os simpatizantes, vão sofrer da sindrome de abstinência. Vão espernear por falta de assunto. Por falta do que dizer, do que comentar. No fundo estamos fazendo um bem a eles. Agindo assim, acreditamos que os estaremos mandando ir em busca da sua identidade, estaremos retirando as muletas nas quais eles se escoram para claudicar em termos de pensamento e idioma aqui acolá. Vamos ver se eles aprendem a andar com as próprias pernas. Não foi o que aconteceu com o uibaionline. Quando nos retiramos, eles afundaram na incapacidade de pensar por si próprios. Afogaram no silêncio do despreparo para o debate. Alguns aprenderam a macaquear um ou outro tique ou bossa nosso, mas como em toda aprendizagem desprovida de reflexão, caíram no mecanicismo rudimentar. Pois bem, leitores simpatizantes, a vocês sempre nossos agradecimentos e nos desculpem, embora já saibam que o recado ai acima é para os viciados leitores das sombras. Há braços!

22 junho 2010

SOBRE A FINALIDADE DO IMPOSTO SINDICAL

Paulinho trambiqueiro da Força Sindical, aquele da propina, que mobilizou a CUT e demais centrais para manifestar em frente ao congresso, com o fim de pressionar deputados a votarem contra sua cassação por corupção, comprovadíssima, mostra porque é protegido de Lulla e Dilmona. Agora, este mês, ele organizou com o dinheiro do imposto sindical (aquele dia de trabalho roubado mensalmente de cada trabalhador) uma grande mobilização da Conclat para fazer campanha pela continuidade do PT no poder. A finalidade desse encontro não era elaborar a posição dos trabalhadores do país para o próximo governo, como eles diziam, mas  ratificar o apoio à candidatura de Dilma. O lema do encontro, nos discursos desses representantes de si mesmos bancados com a grana dos trabalhadores brasileiros era a continuidade do governo Lulla por meio da eleição de seu avatar Dilma Rouseff Stalin. Que se saiba, quando foi aprovado o roubo descarado do imposto sindical, a conversa é que os fundos constituídos por esse imposto seriam para a qualificação de trabalhadores, treinamento e profissionalização etc , mas o que se vê é a dura realidade de sempre: a fortuna escorrendo pelos ralos dos sindicatos e centrais para alimentar a politicagem e o enriquecimento ilícito da turma que monopoliza o território sindical no país. Ladrões!Ladrões!Ladrões! Há braços!

21 junho 2010

O DESENCANTO DE ARAQUE

Há algo muito interessante no comportamento de certos esquerdistas uibaienses. Primeiro eles fazem uma briga encarniçada para eleger o mocosão e sua turma, depois boa parte deles rompe encenando um desencanto de dar dó. Coisa que não convence nem a mais ingênua alma, uma vez que em 2004 já era explicitamente visível a prática e o sinal de como ia ser a gestão dos "salvadores e reconstrutores" da Canabrava. Seria mesmo o que é: uma gestão voltada para o umbigo, centralizada em uma panelinha, sem os compromissos éticos que "norteavam" os sonhos dos desencantados de araque. Sendo assim,  os supostos desiludidos, se estivessem sendo sinceros, teriam detonado o núcleo duro dos mocós já em 2004, como fizemos abertamente e fomos satanizados pelos mocosinhos desiludidos que hoje lamentam  o modus operandi da  administração local. Uns posam egocentricamente como John Lenon dizendo: O sonho acabou. Outros conseguem regredir à idade da pedra da esquerda, fazendo coro com facções nanicas cujas práticas redundaram nas piores memórias modernas  da humanidade. Pior é que a Canabrava está contaminada até a alma por essa vigarice ideológica que só tem  servido de trampolim para uns e outros fazerem a vida no serviço público, enquanto a comunidade afoga na mesmice de sempre. O mais do mesmo, como dissemos acertademente que seria, dessa vez vem com uma cola mais fresca e mais agressiva. Para arrancar essa gente do poder não vai ser fácil. A não ser que estejamos supervalorizando a capacidade deles de grudar no poder sem  destroçarem a si mesmos. Há braços!

19 junho 2010

A VIDA NA AREIA

Quando cheguei à Canabrava, em 1980, fui morar na rua São Geraldo, uma rua arenosa e desasistida, onde vi os primeiros personagens nordestinos com os quais cruzaria cotidianamente. Entre esses personagens havia quatro bem marcantes: o mais próximo era um senhor de nome Joaquim Branco cujo modo de falar manso, alongando as vogais despertava  atenção. Seu Joaquim era um senhor humilde, um camponês que conseguiria um pouco depois colocar pelo menos dois filhos na Universidade Federal: um rapaz e uma moça. Naquela ponta de rua isso significava mais que  uma grande vitória. Outros dois personagens moravam  um pouco abaixo. A esquina à direita de nossa casa era habitada por um casal que vivia em uma taperinha de taipa e telhado de palha. O homem atendia pela alcunha de Maroto e a esposa chamava-se Zefinha. Ambos formavam um harmonioso casal idoso. Todas as manhãs, a parelha solitária de velhos negros saia tocando um jegue rumo à serra. O homem à frente puxando o animal e a esposa atrás com uma vara  de malva na mão tirando a manha do jegue aqui acolá.
A esquina esquerda da rua dava no barreirão, ao lado do cemitério velho. O barreiro era nada mais que um imenso e fundo buraco aberto pela extração de barro para fazer tijolos. Passeando ali pela beirada, ao longe eu avistava saindo de casa o quarto personagem, o mais intrigante: uma senhora velha que também morava em um casebre de enchimento com cobertura de palha. Era uma mulher franzina que vestia calças masculinas e enrolava um pano encardido na cabeça parecendo às vezes um turbante. No início das tardes de segunda-feira invariavelmente eu a encontrava na praça da feira catando grãos crus de feijão perdidos pela areia do vão onde se estabeleciam os vendedores desse alimento tão apreciado pelos sertanejos. Era o retrato da pobreza aquela sertaneja esquálida  acocorada ao relento com as mãos revirando a areia suja da feira, perscrutando cada revirada em busca de minguados feijões que caíram das sacas no fervilhar da manhã de feira e que se perderam no areal da praça. Mas parece que essa era a forma como essa nordestina vencia a fome. Coisa triste de se ver. Dura como aroeira, nunca a vi pedindo esmolas, embora fosse uma possibilidade. Por muito tempo  presenciei essa senhora da qual nem me lembro o nome ciscando pela praça a realizar seu ritual das segundas-feiras. Quando ela morreu eu há muito já havia me despedido da rua São Geraldo, mas corri ao encontro de notícias no que uma negra gorda  que costumava subir a rua equilibrando uma trouxa,  com destino à Fonte Grande, me informara que a encontraram morta dentro do rancho e o que mais causou surpresa nos primeiros curiosos a chegar não foi a serenidade estampada no rosto magro da falecida, mas o tanto de latas velhas enferrujadas de todo tamanho e qualidade formando uma pilha que tomava todos os cômodos da casa, chegando a atingir o teto. Há braços!

18 junho 2010

MORRE O NOBEL SARAMAGO

Morreu hoje o escritor Português José Saramago. O único escritor de língua portuguesa a faturar o nobel de Literatura. Guardadas as proporções, Saramago era um grande representante da arte. Tinha pleno domínio da prosa e um direcionamento claro da sua criação literária. Particularmente, gosto de alguns estilemas de Saramago, mas confesso ser chata a interferência ideológica que imbute, às vezes de modo grosseiro, em algumas de suas obras. Tirando isso, a perda de um escritor é sempre lamentável. Sempre deixa mais pobre a Literatura. Há braços!

17 junho 2010

BOCA DO INFERNO-56: O AVATAR DE LULLA

Dilmona está na Europa. Foi tirada de circulação devido às besteiras que solta uma atrás da outra, dando munição aos adversários. Assim não dá, pensa o núcleo duro petista. No último comício em que participou, o núcleo duro obrigou Dilma a ler o discurso, para evitar as bobagens improvisadas. Dilma não tem a tarimba nem o carisma de Lulla para falar bobagens de improviso sem produzir revolta no eleitorado. Aliás, para não perder o costume, Lulla disse uma bobagem impressionante nesse último comício temático, organizado para as mulheres: que ele estará concorrendo às eleições, só que com nome diferente. No vazio do nome dele colocarão o nome Dilma. Ou seja, Dilma não significa nada, não é nada! Se ela tem alguma existência, não passa da de um avatar de Lulla.Num comício para mulheres, Lulla deu um excelente exemplo da importância das mulheres para o lullismo. Então foi isso, depois que vieram à tona os trambiques do PT montando central de espionagem para produzir dossiês contra adversários, Dilma começou a virar um problema para os objetivos do partido. ACM que gostava da coisa, se sentiria um amador perto do aparato profissional da indústria de dossiês do PT. Muito embora o profissionalismo petista se sucumba sempre à vaidade dos capas que disputam espaço incansavelmente dentro do território de poder petista. Uns sabotando os outros para ocupar postos melhores dentro da máquina. Mas, afinal, Dilma está longe do furacão de trambiques arquitetado por ela e pela turma de Lulla. Estão tentando aliviar o eleitorado do vendaval de cinismo e bobagens  que ocorre quando Dilma abre a boca. A ideia é essa: deixar a poeira baixar! HÁ BRAÇOS!

16 junho 2010

SAIU O EDITAL DO CONCURSO, UFA!

Saiu o edital da nova tentativa de realização do concurso para cargos na prefeitura de Uibaí. Uma coisa a gente pode dizer: antes tarde do que nunca! Uibaí precisa do concurso! É uma questão até mesmo de mudança no modus operandi das pessoas que ocupam o poder. O modo de fazer uso do poder dentro das repartições públicas municipais vai ter que sofrer ajustes. Não vai mudar muito aquela coisa da subserviência, mas certamente vai ficar menos escandalosa. Uma coisa a gente pode dizer do edital com conhecimento de causa: o conteúdo exigido para candidatos a professor de Língua Portuguesa é uma porcaria, coisa de amadores, de desqualificados. Aliás, o reflexo disso está na redação horrorosa do edital. Há braços!

15 junho 2010

PROFESSORES UIBAIENSES EM GREVE SÃO AMEAÇADOS!

Não vamos dizer o óbvio aqui, que professor de Uibaí ganha uma merreca, até porque já o fizemos em outras ocasiões e de lá para cá nada mudou. O prefeito se recusa a simplesmente seguir a lei, a pagar o piso de 900 reais a esses trabalhadores da educação. É a velha história nojenta de sempre: educação incomoda, é a pior coisa para se bancar. É melhor dar esmolas, servir um sopão e manter esse povo no reio. Professor tem que ser miserável, andrajoso e sem nenhuma possibilidade que é para não ensinar bem, vai que o povo pega gosto pelo estudo aí já viu... A desgraça está feita.
Os professores de Uibaí estão em paralisação. Buscam um salário digno ou pelo menos que o "salvador e reconstrutor" de Uibaí cumpra a lei federal e pague o piso. Nem adianta dizer que a prefeitura não tem condições. O prefeito de Presidente Dutra que não prometeu "salvar e reconstruir" Presidente Dutra já paga piso de 900 reais aos seus professores e não reclama de falta de dinheiro. A gente se lembra muito bem que essa mocosada que está no poder enchia a boca para dizer que ia FAZER A DIFERENÇA. A diferença que eles estão fazendo já dá para notar se a gente comparar o contracheque de um professor uibaiense com o de um de presidente Dutra: em torno 400 reais é a diferença. O trabalhador da educação em Uibaí ganha 400 a menos, isso é uma grande diferença. Como se não bastasse o soldo humilhante, nossos professores estão sendo ameaçados de corte de ponto pela Secretaria de "Educação" caso continuem paralisados! 
Deixamos aqui nossa solidariedade e todo apoio aos professores uibaienses! Há braços!

14 junho 2010

O CONTRA-SENSO


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Recebemos mais esta foto aqui do Grêmio Voz do Povo apinhado de jovens. A gente já sabe que foto não é tudo, mas é inegável que o Grêmio mantém essa resposta positiva da comunidade uibaiense desde a sua inauguração em 2004. E esse nicho de resistência cultural precisa da atenção pública. É inconcebível um município ter uma estrutura desse porte, com esse nível de participação da comunidade e a prefeitura simplesmente fazer vista grossa. Ignorar solenemente. O isolamento que o poder público procura impor ao Grêmio, simplesmente por ainda não ser uma extensão do grupo que está no poder, é o maior sintoma da burrice política. Não é coisa de quem tem visão social e política é coisa de trogloditas. O prefeito deveria chamar a turma dele na bronca. Exigir um plano de metas que acolha essas iniciativas não governamentais que, de uma forma ou de outra, contribuem para amenizar gastos públicos com problemas sociais e educacionais. Nem que para isso pusesse uma equipe de profissionais qualificados para medir os resultados sociais dessas iniciativas. O simples descaso é deplorável é acenar para o atraso. Na atual conjuntura, é difícil acreditar que um gestor público tenha esse tipo de miopia. Isso é coisa de gente sem tino para conviver com diferenças, portanto, inadequada para gerir o patrimônio público, que é de todo mundo: bonitos ou feios, esquerda ou direita, homens, mulheres ou algo que o valha, bonzinhos ou mauzinhos e tutti quanti. Em princípio, a gente pensa que o prefeito pode fazer a coisa andar de forma diferente. Há braços!

13 junho 2010

A PRINCIPAL FUNÇÃO DA TRANSCANABRABEIRA


Segundo um véi lá da Toca do Buquerão dus impussivi, ronda os corredores da Mocolândia que o general dos mocós retomou seu grande projeto: a rodovia transcanabrabeira. Aquela estrada monumental que ligaria Mocolândia ao outro lado da serra. Dizem uns véi da fronteira do Brasil com o Bosta de Jegue,  despeitados e invejosos, que querem ver só a destruição da Mocolândia, que o alcaide espertinho está usando gratuitamente a mão de obra dos donos de roça na serra. Adivinhem por quê? Nem vou responder, aí já é demais. Aí já é ser língua do cão, já é ter o coração de pedra. Tá bom vou dizer o que esse povinho ruim, esses véi desgraçados, distruidores de mitos estão sabendo: porque o alcaide comprou o Brejo Novo a Renatinho. (e quem vendeu o tal brejo para Renatinho? Só Deus sabe ou então uma véa lá da Veredinha) O Brejo novo é um lugar isolado, longe pra burro, de água maravilhosa e tem uma casa imensa, com banheiros, forrada, suíte, área em volta da casa toda, piscina etc... A estrada facilitaria o acesso a essas terras que ficam depois da Serra dos Bois...Será que o traíra Vicente Veloso passou por ali? Certamente passou, segundo disse uma véa lá do Baixão de Fantino (kkkkk). O fato é que o lugar é um paraíso que o alcaide comprou. Ô povo fofoqueiro esse, já vai jogar areia no empreendimento do mocó de maior patente. Ô povo do cão , invejoso, destruidor, malfazejo. Para completar, diz uma véa lá do Mané Janjão que o mocozão alcaide ainda pensou em encascalhar a estrada que vai para os brejos e só não o fez ainda para não criar animosidade com os Chico Mendes que andam cultivando pé de planta lá por riba. Há braços!



12 junho 2010

COMO FAZER "PESQUISA HISTÓRICA" EM UIBAÍ?

É assim que se faz: segundo os mais véi, de acordo com o que Liobino disse, conforme me disse uma véa lá da Laranjeira, no entender de Faburino, tendo em vista o que falou um véi que eu encontrei na estrada do Mandacaru, no entender de João de Guidu... Isso é pesquisa? Eu, particularmente, sonho  todas as noites em chegar logo aos 80 anos  só para virar autoridade incontestável no quesito "História de Uibaí". Sendo generoso, essa coisa está mais para especulação de curiosos sobre o imaginário canabrabeiro, o folclore, a memória criativa desse povo do pé da Serra Azul. Há quem ache que está mais para inventário de fofoqueiros ou compilação de lorotas urdidas pela cabeça criativa de certos artistas populares.  Mas, trocando em miúdos, pesquisa vai bem além  do ajuntado fantasioso que se ouve ou vê aqui e ali pelos corredores da Canabrava. Há braços!

PREFEITURA TEM DIFICULDADES COM O CONCURSO

Fabio Rosa escreveu um texto preciso no blog Poço de Uibaí, a respeito do novo concurso da prefeitura. O que se nota, pelo teor do que vem explícito na matéria, é que a prefeitura está apanhando como um marinheiro de primeira viagem até hoje no quesito organização legal do processo para escolha de novos funcionários via concurso. Como essa já é a segunda tentativa, é o caso de se confirmar de vez a incompetência administrativa desse povo. A nova empresa contratada já incorre em algumas faltas que podem crescer e atrapalhar a lisura do processo. Leiam lá no blog Poço de Uibaí. Há braços!

10 junho 2010

O LULLISMO ATROPELA O PT, SEM PENA

O núcleo duro do PT, depois de apertar o cinto dentro do próprio partido para impor candidaturas, passou a executar tais imposições à revelia das decisões locais do partido. Sandra Starling, petista tradicional mineira, pediu desfiliação do partido depois que Lulla e Dilma, ignorando as decisões do partido em Minas Gerais, impuseram a candidatura de Hélio Costa como candidatura dos petistas. Sandra divulgou carta ontem em que lamenta o que a cúpula vem fazendo com o partido e chamou Lulla de caudilho.
No Maranhão, Lulla e sua trupe tenta encaixar a fórceps Roseana Sarney como candidata do partido. O deputado petista no Maranhão Domingos Dutra, em franca ruptura, disse em entrevista que "os Sarney têm catinga" e que o PT local não abrirá mão de apoiar a candidatura de Flávio Dino do PCdoB. Em protesto contra o intervencionismo lullista no partido, ele começará uma greve de fome no plenário da Câmara de Deputados. Tá brincando, será que ele não sabe a opinião de Lulla e cia sobre greve de fome? O que Lulla disse mesmo quando o preso político cubano Orlando Tamayo morreu em greve de fome?
Vejam bem, o que a turma de Lulla tem mostrado é a verdadeira face da esquerda no poder. Aquele discurso nostálgico de ética e ideais já era. Os que  defendem isso ainda dentro do PT certamente estão na periferia do partido e são inexpressivos em termos de poder. A natureza ideológica do que se configurou como esquerda no Brasil não leva a outro lugar. É tudo uma questão de estar com o poder nas mãos. Há braços!

09 junho 2010

QUEM FOI VICENTE VELOSO

Já falei de mitos por aqui. É hora de desfazer pelo menos um. Primeiro vou contar a história de Lingala Kembelle. Kembelle era um guerreiro banto que foi capturado na costa da África, em 1793,  pelo traficante de escravos Dom Álvares Fonseca. Trazido para a Bahia, Lingala, ainda no porão do navio português havia se tornado líder de um grupo de 43 indivíduos banto, depois de ter feito o parto de uma princesa do Congo integrante de tal grupo e de ter degolado um feitor que entrara no porão para estuprar algumas crianças que integravam o lote de escravos.  
Após chegarem ao Mercado Modelo, na Cidade da Bahia, no mês de setembro do ano de 1793 de Nosso Senhor, os 43 negros integrantes do grupo de Lingala Kembelle foram vendidos, junto com ele e mais outros que formavam um lote de 61 escravos, ao rico sobrinho de  Belchior Dias Moreira, dono de minas de ouro nas lavras da Vila de Santo Antônio  de  Jacobina. Nas minas, em situação degradante, no ano de 1797, Lingala liderou uma revolta chamada Revolta da Lama Branca. Os negros do seu bando, cobertos da lama branca na qual ficavam atolados o dia inteiro  no interior das minas atacaram os sentinelas e fizeram o feitor-mor de refém. A revolta só não chegou à casa grande do sobrinho de Belchior porque um negro de dentro da cozinha, de nome Yahlew Ngunda, que servia a ração na senzala e nas minas e atendia pelo  nome português de  Vicente Veloso, instigado por um dos sentinelas ligados ao feitor, ao levar a ração aos amotinados enfiou um punhal enferrujado nas costas de Lingala atingindo-lhe mortalmente o coração. Na verdade, o negro Vicente não era ingênuo. Relatos de dentro da própria senzala, após  a revolta ser  debelada com o extermínio  de dezenove africanos do grupo de Lingala, abatidos a tiros de mosquete, confirmam que Vicente Veloso (parece que ele detestava o nome de origem Yahlew Ngunda)  havia negociado com os homens do feitor o assassinato do líder  Lingala Kembelle em troca de um jegue, uma capanga com alguns nacos de carne seca, uma rapadura, uma cabaça de água e um sabre meio desgastado. No trato, o feitor diria ao sobrinho de Belchior que o negro da cozinha havia sido assassinado na revolta dos escravos das minas, para que, por fim, Vicente Veloso caísse fora com sua liberdade conseguida a troco do banho de sangue dos de sua própria etnia. Foi esse Vicente egoísta, traidor e negador da própria raça que embrenhou na caatinga, chegando ao boqueirão da Canabrava, atravessando-o para mais tarde dar notícias daquelas terras de águas frescas a um tal Venceslau Machado,  lá para as bandas do Assuruá. Não há heroismo algum, por parte de Vicente Veloso, no que sobrou nos registros embolorados e fragmentados dos autos de um inquérito feito à época a pedido do sobrinho de Belchior. O que consta é que o dono das minas, além do prejuízo de dezenove escravos novos e sadios (no total 21, contando com o negro fujão e com o líder assassinado), estava desconfiado de que o feitor e o administrador das minas o  estavam roubando e de que toda aquela revolta tinha sido insuflada para facilitar o desvio de uma quantidade razoável de ouro ainda não contabilizado. O dono das minas pretendia esclarecer o ocorrido em  suas posses para poder condenar seu administrador e o feitor,  forçando-lhes a devolver o ouro roubado. Há braços!

07 junho 2010

A ACCU TÁ BEM NA FOTO... E NA FITA?

Recebemos aqui essa fotografia da Accu na qual aparecem umas 150 crianças, supostamente integrantes deste projeto privado que abre um canal de oportunidade para a meninada crescer tendo em vista outra perspectiva além de beber cachaça, entre outras porcarias destrutivas. Pelo menos é isso o que diz a proposta da tal Ação Cidadã pelas Crianças de Uibaí (Accu). Mas há um engano terrível aí:  foto não é fato. Esporte e atividade física não geram cidadania. Aliás, a área esportiva é campeã  em número de desajustados sociais. Mas a iniciativa privada Accu, malgrado as limitações, merece todo respeito da comunidade uibaiense. Até porque é particular.  A gente gostaria de saber mesmo é qual a iniciativa pública correspondente a Accu. Isso mesmo, qual é a Ação Cidadã pelas Crianças de Uibaí executada pela prefeitura? Aliás, é preciso saber também quais são os dados reais do projeto Accu. Fotografia apinhada de criança é a coisa mais fácil de fazer. O que é importante divulgar são os dados sociais desse projeto, por exemplo: quais os reflexos na educação da molecada, na formação do caráter, na autoestima, na economia familiar o projeto está produzindo? Uma coisa é certa: Jarão não tem cacife para fazer essa leitura com o rigor que ela necessita. Nem para imprimir o caráter cidadão prometido pelo projeto. Isso é trabalho para um sociólogo experimentado, ou pelo menos para gente com faro, não para técnico de futebol. Isso é assunto para quem está acostumado a lidar com indicadores sociais, não para quem está acostumado a lidar com tabela de campeonato ou algo que o valha...  Há braços

POR QUE MOCÓ ADORA FOFOCA?

Mocó vive no subterrâneo
nos labirintos da toca
por isso tende a achar 
que toda crítica é fofoca
não sabe nem calcular 
o que faz, no que aposta
falta luz no que ele pensa
lá no sombrio da loca
vivendo sem arejar
o que pensa, do que gosta
acaba tudo virado
misturado a própria bosta
então quando sai do antro
o que diz logo se esgota
resumido à fedentina
da vida que ele adota
(JM da Silva, sem pena dos mocós)

05 junho 2010

PELA JANELA

Abro a janela para contemplar o mundo. Um movimento mesquinho engana o desejo de gente da praça. Duas moças conversam sob uma algaroba. Alguns meninos sobem a ladeira arrastando um cachorro magro. De repente, uma revoada de poeira levanta do jardim árido no vão central. As moças cobrem os rostos e tentam conter os cabelos desgrenhados. Os meninos cessam a subida para alívio do vira-latas insolente. Contemplam o pé-de-vento fazendo uma espiral de folhas secas. Um bêbado desavisado se perde na poeira ao faltar-lhe o equilíbrio necessário na saída do boteco em frente. Tudo muito, muito estranho no meu coração. Um aperto... uma desolação imensa. O frescor de juventude que avisto da janela é tíbio e gris. Nada esmaece a melancolia que engole a cena indiferentemente, como o pequeno redemoinho que se abriu no vão da praça naquele momento. O bêbado desiste de lutar. Para e se abandona ao vento poluído das coisas do chão. O coração em pedaços descansa protegido no fundo da garrafa que leva nas mãos. O rastro de esperanças aos poucos se apaga atrás do vulto bambo. Da janela avisto as coisas se recomporem aos poucos. As moças acenam com um sorriso fresco. Ainda há pouco assemelhavam-se a sombras mortas perdidas no  que parecia  decomposição do ambiente. Os meninos determinados arrastam o cachorro magro. Não há finalidade alguma na perseverança deles. Apenas têm de ser meninos arrastando um vira-latas magro ladeira acima. O bêbado encolhe-se pensativo. Quase fetal, molda-se ao próprio sofrimento depurado pelo álcool. E fica ali abandonado como qualquer um, perdido em suas ilusões, sem saber prestar contas à vida, como se fosse necessário.   Há braços!

02 junho 2010

BOCA DO INFERNO - 55: O SÃO JOÃO DE TÕE BABÃO

O São João de Tõe Babão
é agitado que só
de noite toma cachaça 
e dança muito forró
de manhã varre a calçada 
tira lixo, tira pó
só não tira a ressaca
dos neto do véi lió
ali não tem tempo ruim
 ri mesmo com um dente só
pula, chacoalha, agita
limpa em frente de Gió
os outros faz a chujera
ele limpa sem ter dó.
só não limpa a malandragem
da cambada de mocó.
(JM. da Silva, ainda resistindo)

01 junho 2010

O PRIMEIRO SÃO JOÃO, A GENTE NUNCA ESQUECE


Eu pisei os pés pela primeira vez nas areias da Canabrava em meados de  maio de 1980. Tinha meus 11 anos de idade e fui tocado por duas coisas que me marcaram profundamente. Chegamos à noite a cidade, tudo meio às escuras. Na manhã do dia seguinte, foi um espanto olhar para aquela imensidão de serra, tão alta, bem ali pertinho. Algo emocionante e indescritível para um menino de capital, acostumado a ver florestas mais nos filmes de Tarzan, nas séries americanas Daktari Mundo Animal e nas caçadas de Pedrinho do Sítio do Pica-pau amarelo. Tinha naquele momento um sonho começando a se  realizar! Finalmente  empreenderia minhas aventuras pelas selvas. Meus sonhos de Tarzan e Pedrinho se realizariam. 
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Abandonei todos os apegos citadinos e me enfiei na serra armando arapuca, indo buscar lenha com Reis de Tereza, fazendo piseiro para o Banheirão, Fonte Grande, Fontinha... Era tudo muito mágico: os cheiros, os sons, as cores, a água limpa e fria do riacho... As primeiras impressões são as que ficam, não é o que sempre dizem? 
Não apenas a serra com sua diversidade mexeu com minha história para sempre, mas o que veio no mês seguinte: o São João uibaiense. De repente, a pracinha estava tomada por barracas de palha de coqueiro e por todos os rituais que ocorrem naqueles dias  festivos. "A emenda... Eu vou fazer um engenho... A emenda... De corda de caroá"... Foi a primeira música que ouvi ao chegar na Praça Velha repleta de alegria. Binga na esquina do colégio de Tonico vendendo quebra-queixo, ao lado da barraca da FBU.  Mais à frente, embaixo de uma gigante   algaroba   ( havia duas na praça) um pipoqueiro rodava a manivela enquanto a meninada saboreava o cheiro a espera das pipocas quentinhas. A coisa mais tocante do São João eram aquelas rodas que as crianças faziam dentro das barracas para dançar forró. Aí um menino ou menina ia para o centro da roda e chamava alguém para dançar. Os pares iam-se alternando no centro. E assim seguia a noite de São João para a meninada. Ainda havia certa inocência. Ali começavam os namoricos, bem bobinhos para os padrões de hoje. Aliás, naquela época adultos não assediavam crianças como  fazem na atualidade. A infância ainda tinha um lugar de infância na sociedade. A infância não era tão curta.
 A primeira vez que entrei em uma roda dessas foi na barraca da CEU. Da música jamais me esqueço: "São João chegou/ e com ele o meu amor chegou também/Chegou tão sofrido/de amor perdido/maltratado por alguém"... Foi também a primeira vez que uma menina me chamou para dançar! Uma garotinha de língua presa chamada Aline, confirmei depois. Com o andar da noite ainda vi o negro Tapioca (apelido bem irônico), diante das desistências  de Sirinão e Haroldo, escalando  um pau-de-sebo plantado em frente à padaria de Antonhão, um pouco depois de um evento chamado Pau-de-fitas, organizado por Silvio Velho. Nesse participava um pessoal mais maduro. Eles iam dançando em torno de um mastro, segurando fitas coloridas a ele amarradas. Ao final da dança o mastro estava todo coberto por um trançado de fitas  coloridas muito bonito. No correr da semana de festa, houvera ainda casamento de matutos, quadrilhas e brincadeiras, como corrida de ovo e quebra-pote. Detalhe: ninguém conseguira pegar o desesperado gato com o dinheiro amarrado no rabo.
Essas duas coisas que fortemente experienciei na primeira fase da minha chegada a  Uibaí são as que mais me emocionam quando revolvo a memória. Há uma porção de coisas boas nas fases seguintes: a ida para a escola José de Alencar, como aluno do professor Antônio Maria, a chegada ao Colégio Velho no ano seguinte. As aventuras pelo pomar do colégio, desafiando a vigilância  de Jove. As brincadeiras nos paredões do colégio. A formação da turma de desenhistas de gibis, na qual se destacaram Celito com o gibi do Homem Relógio, Dod com o do Águia, Pita com o do Cabeça de Pedra e eu com o do Furacão. Cada heroi mais destabanado que o outro. Para terem uma ideia, o Homem Relógio de Celito ganhou super poderes depois que um relógio grande caiu na cabeça dele. E por aí vai... mas nada bate a emoção do primeiro contato, das primeiras idas à serra e do primeiro São João! Há braços!